Claro e Profundo

Eu não deixei de escrever. Apenas voltei à raiz para encontrar um novo meio. Ficar mais próximo da terra me faz bem. Encostar no papel também. E sujar as mãos de tinta me faz lembrar de quando cuidava de uma grande horta. Tempos passados não entram mais pela única janela aberta. Hoje tem sol, tem céu, tem tarde silenciosa, tem tentativa frustrada de meditação, tem sensação de feridas abertas e peso de saudade no coração. Amanhã é domingo, mas o hoje é que importa. Queria vivê-lo para sempre, perdido na trivialidade do nada para se fazer. O que eu podia, certamente, foi feito. Contemplei as paredes, revivi os fantasmas, despertei as ideias para nadarem contra a correnteza. Tudo isso em uma tarde. Eis a arte de se preencher os vazios. Nada sei a respeito dos finais. Sempre houve um parágrafo para eu recomeçar. Tudo voltará para o início da folha. A história acontece não na escrita, mas na leitura. E cada um lê conforme aprendeu. No meu caso, aprendi com as traças. Roendo de dentro para fora o que foi escrito, até chegar ao ponde de não ter mais nada senão memórias para se recontar de novo que foi roído.

Caríssimos, não peçam verdades nessas linhas. Lembro-me de poucas coisas. Muitos livros empoeirados. Muito peso para se carregar. Muitas horas jogadas hora. E desejos para se recordar. Posso dizer que o relógio deu a volta completa por muitas vezes sem que eu m desse conta. E aqui está o que eu aprendi com isso: turbulência fantasiada de silêncio. Aprendi a me controlar em meio à multidão, contanto que eu não seja pego de surpresa. Surpresas são a decadência dos artistas despercebidos. Na multidão, que diferença faz se eu mexo com as palavras? Cada um carrega suas histórias consigo. As minhas, nem eu estou dando conta. Por que me preocupar com as opiniões? Se esta ou aquela preposição está bem colocada? Tudo superfície marcada. Nem com uma pedra amarrada aos pés conseguiria chegar ao fundo antes de morrer. Talvez seja esse o segredo: morrer todas as noites para renascer no dia seguinte. Afundar para emergir. E todo dia tentar de novo...? Acho que não.  O certo seria: todo dia ser de novo o que me foi tirado. Páginas arrancadas. Livros roubados. Sonhos partidos. Noites sonhadas. Se for necessário afundar, que seja naturalmente.

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