A Mentira Construída
Ao longo do caminho, fui pegando coisas irrelevantes porém pesadas de mais, como os medos supérfluos de querer me provar como alguém que nunca fui. Quando tentei jogar a carga fora, ela estava tão presa às minhas vestimentas que minha única opção seria tirar tudo para poder seguir adiante. Daí veio a vergonha de caminhar despido. Como poderia prosseguir? Aos poucos, fui tirando coisas daqui e coisas dali até o limite da capacidade. Comecei a entender pequenas artimanhas que usei para me esconder quando não satisfeito comigo mesmo. Puramente e substancialmente, modificava todas as pegadas julgando meus pés. Eles, responsáveis por toda a trajetória, não eram benquistos.
A partir daí, muitas coisas difíceis aconteceram. Perdi o fôlego, tremi na base, quis fugir para as sombras, sacrifiquei meus sonhos, quase virei um ponto mal feito na escuridão, simplesmente por não aceitar as minhas pegadas. Queria, mais que tudo, trocar de sandálias mesmo estando boas para seguir viagem. Quanta imaturidade! Sabe no que isso tudo acarretou? Bem, vamos lá:
— Tinha medo do julgamento das pessoas.
— Tinha receio delas descobrirem a verdade.
— Não me aceitava plenamente em essência.
— Queria mostrar algo valioso.
— Queria ter uma inteligência que não tinha.
— Tinha pavor da insegurança, e quanto mais eu a rejeitava, mais força ela ganhava.
— Não podia demonstrar fraquezas.
— Vivia tentando maquiar a realidade.
— Aumentava ou diminuía a história de acordo com meus caprichos.
— Levava a vida com uma seriedade extrema de desnecessária.
— Não dava, em hipótese alguma, espaço para o bom humor.
— Cobrava-me demais.
— No fundo, escondia minha fraqueza ainda que ela ficasse evidente.
— A mentira era mais importante.
— Muitas outras coisas das quais me esqueci colaboravam para tanto.
Então, o meu corpo respondia da pior forma possível. Já não o controlava. Era como se um outro eu tomasse conta dele, fazendo tudo ao contrário do que planejava. A surpresa era a pior das inimigas do coração que se armava para a batalha. Quando ela o pegava, derramava algo semelhante a água fervente no peito descontrolado, lutando para se desprender das costelas. Queria fugir! A fuga era a melhor das opções. Não! Nunca foi. Os olhares me perfuravam a carne. Eu me doía com aquela chuva de pensamentos. Era um desastre anunciado. Por que tinha escolhido o caminho mais difícil? Por que não me aceitava? A respiração era a pior das entregas. Entregava-me sem dó. Descontrolava-se de forma irregular, puxava o ar profundamente e o prendia dentro do peito, lugar de onde o coração queria fugir. Tudo isso para nada. Ainda tinha a vergonha. Vergonha de ter que me despir para recomeçar. O peso era grande demais. A minha voz, tão estimada, sumia em meio à bagunça interna que havia se consumado. Não conseguia ler uma frase sequer. A leitura havia se transformado em tortura. Justamente o que eu mais amava fazer se transformara em martírio. Esta era a situação que tinha construído para eu me sentir importante. Motivos? Nenhum. Apenas a vontade de fazer a mentira mais importante que a verdade. Páginas em branco vividas com desespero.
No fundo, sei que foi importante eu passar por isso. Agora que estou me libertando, consigo escrever sobre o medo que semeei e a mentira que construí. Isso fez eu ser quem sou. Posso relaxar. Estou despido. E caminho levemente pelas margens de um lago transparente. Meus pés! Nunca os achei tão bonitos quanto agora. Não preciso olhar para trás para compreender o horizonte. Para todos as direções existem paisagens. E toda paisagem é poesia. É arte que se firma no estado natural de existir. Se existo, sinto; se sinto, vivo a poesia; se me poetizo, amo viver. E assim, o coração volta ao peito com esperança de um novo encontro com a verdade.
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