Pontos e Silêncios

Daí, as coisas vão se transformando. Eu não sei muito bem onde estou. Sei apenas reconhecer os silêncios onde antes existia melodia. A música parou de repente e quando eu percebi, bem, alguma coisa muito ruim aconteceu. Dentro de mim, obviamente. Pois do lado de fora tudo estava conforme sempre esteve. Eu não perceberia nada se fosse surdo. Mas Deus me deu uma audição boa o bastante para perceber pequenos detalhes. Ruídos. Coisas que se foram para sempre. Ou quase sempre. Talvez voltem depois que eu me virar. Sigo com o pescoço rígido, negando-me os lados para onde não quero olhar. Nem os olhares acompanham mais as assustadoras sombras das beiradas.

Passaram-se horas. Perdi o fio. A linha arrebentou. A vida passou. E sol... Continua a adentrar pela janela escancarada, marcando o guarda-roupas com uma forma em diagonal, fazendo-me lembrar da infância. Aquele feixe de luz como pequena capela perto da porta do quarto onde dormia. Era o meu templo. A maior sacralidade que podia conceber na tenra idade onde eu era pequeno e tudo era grande.

Reaprendi a escrever por aqui. Tinha me esquecido de tudo. Tudo era simples demais e se foi num estalo. Escrevo agora com música, sem me importar ou distrair. Faz parte do jogo. As pequenas coisas são, de fato, pequenas. E eu? O que eu sou? Se fosse escutar as vozes do entorno, saberia de uma grandeza desproporcional diante daquela que costumava que encaixar. Desconfio que eu seja maior do que acredito ser. O que posso fazer com essa informação? Nadar e nadar por sobre as ondas do mar.

Falei de um silêncio esquisito. Destoante da realidade. Eu sou o ponto fora da curva. Aquele que vê os carros passando de fora. Uma paisagem, talvez. E por falar em "talvez", talvez eu devesse semear o sonho de um dia escrever um livro. Quem sabe! Eu sei... E quero! Já passou da hora de usar as palavras conforme o sonho pintou. Ele é o artista. Nós, pontos de silêncio no horizonte porque escolhemos nos calar. Chega de escolhas erradas! Os pontos falam por si: exclamações e finais. Existem coisas além. Coisas a serem contadas por quem nunca contou. Um, dois e três. Por fim, o tempo passando contando os sonhos esquecidos. É tempo de deixar uma carta para trás. Assinada com um nome comum. Apenas para marcar no infinito algo que acabou. A contradição do espaço sem fim: a história com um ponto final. E nada mais.  

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