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Mostrando postagens de julho, 2018

A Rua Onde Cresci

Revendo algumas fotos antigas, pude perceber o quanto eu tive uma infância privilegiada. Recordei-me da escola e das festas juninas que participava. Em uma delas, até vó Zulmira estava presente para me ver dançar a quadrilha. Devia ter uns seis anos; os quais compunham toda minha existência estendida em brincadeiras, desenhos animados, bolinhos de chuva, minha coleção invejável de animais de plástico, o contato com a natureza e a liberdade que só as crianças que crescem no interior possuem. Até as árvores da rua onde morava ganharam formas especiais em minha memória. Hoje elas não mais existem; o lugar está mudado e as crianças que brincam na mesma calçada onde brinquei não sabem como era há vinte anos. Não viram o banco de madeira; a velha casa assombrada; o lado arborizado da via; os carrinhos de picolé que passavam aos domingos; a laranjeira no quintal da vizinha; o pé de acerola que invadia a passagem; o aterro das galinhas; o silêncio perdido nas tardes de verão... A rua se transf...

Entre a Seriedade e a Comicidade

Além de tudo, meu humor costuma variar do sério ao cômico em grandes proporções. Lembro-me de uma conversa descontraída onde era cabível um tom jocoso, cujo riso fazia-se presente. Momentos depois, já estava adornado com o manto da seriedade. É importante ressaltar que isso não me faz bipolar, mas alguém que sabe dosar o humor necessário para determinada circunstância. Acredito que seja importante levar a vida despreocupado, oscilando as emoções de acordo com o que é vivido. Na hora de rir, rio como ninguém. Para um contador de estórias, o riso é combustível; algo precioso que inunda o ser de graça e eterniza o momento. Rir é dom, é força motivadora para prosseguir, é ave que voa numa tarde de verão. Mas é preciso se atentar. O mesmo finda-se nos temores e anseios. A hora de chorar às vezes vem e sobrepõe-se ao riso com seu peso exorbitante. Nasce a compaixão de sofrer por mim e pelo próximo que divide sua carga. A seriedade empática toma conta num laço apertado, e logo tento desatar o...

O Medo de se Abrir Uma Porta

É engraçado perceber a vontade que eu tenho de escrever sem ao menos saber o quê. Como uma terapia onde se busca a compreensão de algo, mas que não se entende o processo. Por várias vezes, iniciei um texto e o apaguei na segunda linha. Talvez seja por receio à exposição ou simplesmente pela forma condutora das palavras. Assim, chego a passar semanas sem produzir. Isso vale também ao Pena Pensante, cujos livros ficam estacionados na estante sem previsão para serem resenhados. O artigo que publiquei há alguns dias, intitulado de O Campo Cinzento das Palavras, diz respeito a isto. Como pode existir períodos de aridez extrema na mente, tal como a estação da seca? Ilustrando desse modo, talvez eu devesse ir buscar refúgio no litoral, mas todas as vezes que estou prestes a embarcar em um pau de arara, eis que a chuva começa a cair. Agora, observando por outro ângulo, o problema pode estar no medo. Sim, pois para escrever é preciso mergulhar profundamente nas entranhas da alma e transformá-la...

Da Superficialidade às Estrelas Cadentes

Talvez as melhores obras tenham sido realizadas nos tempos de outrora pelo simples fato das pessoas terem o hábito de olhar mais para o céu à noite. Ao constatarem aquele aglomerado de corpos celestes, sem ao menos entenderem suas estruturas, percebiam o imensurável mistério circundante. Não havia mente que permanecesse apática diante do terrível breu adornado de rútilas estrelas. Era refletida, então, a profundidade da alma dos que extraíam belas canções ou pinturas nascidas da noite sem fim. Outros, entretanto, tinham seus pensamentos moldados à trivialidade, sendo incapazes de perceber a faustosa manifestação natural ou tirar algo proveitoso desse espetáculo. Suas mentes estavam condicionadas àquilo que julgavam importante, o que na maioria das vezes dissertava-se em liames narcisistas. Nada os importava; nada os surpreendia; nada os emocionava... Passavam suas vidas ditando suas preocupações sem qualquer importância e logo caíam no esquecimento, como uma pena que se desprende do co...

O Campo Cinzento das Palavras

Lá estava eu, desacordado sobre as cinzas das palavras. Depois de um incêndio ter devastado o campo das ideias, arruinando todos os pomares textuais organizados em minha mente, só me restou o fino borralho batido ao chão. Ali eu adormeci a espera da fênix, cujo ciclo se concretiza em seu ressurgimento das cinzas. Em meio aquela opacidade, algo começava a reluzir. Uma palavra!? Estaria eu no fosso das palavras minguantes? Improvável, pois a sensação dessa vez não se restringia nas paredes de uma caverna, mas na amplitude de uma campina inabitada. A palavra não caiu de cima como da última vez, cabendo-lhe o ofício de broto numa terra ressequida. Enfim, pude esfregar os olhos e forçar a leitura: "predicado". Era um substantivo se revelando a mim. E eu, como sujeito daquela ocasião, logo entendi o porquê. Os campos cinzentos e desertos eram inerentes à minha essência, atribuídos ao gênio da escrita que vez ou outra costumava florescer. Apesar do cenário melancólico, não me sentia...

Menos Imagem, Mais Imaginação

Desde o começo, me propus a escrever... Experiências, reminiscências, casos e outras coisas que viessem à minha mente. E estive fazendo isso com muito gosto em apurar o ofício da escrita de acordo com as publicações esporádicas. Lembro-me de ter escrito sobre a volta dos textos desorientados, pois, de fato, esta é a melhor classificação para tais linhas corridas: sem um tema específico, apenas palavras organizadas em pensamentos que ganham suas formas em breves parágrafos. Tudo corria bem quando a inspiração vinha; os textos surgiam como uma teia concluída às pressas por um aracnídeo perdido em tantos afazeres. O problema estava no toque final, na cereja do bolo, no último elo de conexão entre dois extremos: na imagem que ilustrava o relato. Aí firmava-se um problema! O último nó da teia não seguia a fiada dos pontos da obra, concedendo um resultado oposto ao almejado. Queria embelezar o texto, tornando-o mais atrativo. Tiro n'água. Ao pesquisar uma imagem adequada para vir à frent...

Adeus, Redes Sociais!

Hoje excluí definitivamente minhas redes sociais. A sensação que veio logo após o ato foi da mais cristalina liberdade, como se os holofotes tivessem se apagado e toda futilidade tivesse se esvaído numa leve brisa. Sim, acredito ter sido uma sábia atitude tomada, ainda mais encarando o modelo de vida que tenho aspirado nos últimos tempos. Posso dizer: não preciso dessa capa que encobre a realidade com seu tecido egocêntrico. Se soubesse, teria feito antes. Teria saído de cena; das telas policromadas; das ideias materialistas e dos modelos exacerbados em delírios. Busco a simplicidade de novo... E de novo a encontrarei na realidade dos feitos corriqueiros que trazem o brilho da poesia ao longo de sua extensão. Sim... É isso que quero! Ser simples! Como a folha da árvore frondosa que balança com o vento e a chuva. Não existe isso nas populares redes sociais, pois o próprio nome afirma que tais folhas estão presas em grossas redes que impossibilitam os movimentos da liberdade. Presas em o...