O Medo de se Abrir Uma Porta

É engraçado perceber a vontade que eu tenho de escrever sem ao menos saber o quê. Como uma terapia onde se busca a compreensão de algo, mas que não se entende o processo. Por várias vezes, iniciei um texto e o apaguei na segunda linha. Talvez seja por receio à exposição ou simplesmente pela forma condutora das palavras. Assim, chego a passar semanas sem produzir.

Isso vale também ao Pena Pensante, cujos livros ficam estacionados na estante sem previsão para serem resenhados. O artigo que publiquei há alguns dias, intitulado de O Campo Cinzento das Palavras, diz respeito a isto. Como pode existir períodos de aridez extrema na mente, tal como a estação da seca? Ilustrando desse modo, talvez eu devesse ir buscar refúgio no litoral, mas todas as vezes que estou prestes a embarcar em um pau de arara, eis que a chuva começa a cair.

Agora, observando por outro ângulo, o problema pode estar no medo. Sim, pois para escrever é preciso mergulhar profundamente nas entranhas da alma e transformá-las em linhas corridas. Sobre isso, eu ainda sou incapaz pelo simples fato de mudar frequentemente minha visão... Embora o fato não condiga com o campo imaginário de um escritor que percorre as veredas opinativas: mudar a visão não é sinônimo de mudar o trajeto.

Veio-me à mente um largo corredor cheio de portas nas laterais, no qual eu poderia continuar seguindo reto ou, quem sabe, tentar abrir uma das portas e alterar o percurso. Por mais que houvesse desafios, eu permaneceria alinhado. Dizem que tais portas são as oportunidades que surgem no decorrer da vida, mas não creio que exista oportunidade melhor do que caminhar aprumado, nem tampouco que seja o medo de abrir as portas o viés do fracasso. Sabemos que, vez ou outra, aparece uma bem à frente... Ora trancada, ora escancarada!

Digo sem medo que jamais deixei de aproveitar uma oportunidade; jamais fiquei sentado diante das portas trancadas; jamais estive ocioso no percurso. A questão é que nem todas as entradas nos levam ao verdadeiro projeto da vida. Por isso a necessidade da apuração existencial entre o condizer e o exercer. Devemos exercer somente aquilo que condiz com nossa missão, do contrário, percorreremos itinerários de passos desastrosos que nos levarão somente à beira do precipício.

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