Da Superficialidade às Estrelas Cadentes

Talvez as melhores obras tenham sido realizadas nos tempos de outrora pelo simples fato das pessoas terem o hábito de olhar mais para o céu à noite. Ao constatarem aquele aglomerado de corpos celestes, sem ao menos entenderem suas estruturas, percebiam o imensurável mistério circundante. Não havia mente que permanecesse apática diante do terrível breu adornado de rútilas estrelas.

Era refletida, então, a profundidade da alma dos que extraíam belas canções ou pinturas nascidas da noite sem fim. Outros, entretanto, tinham seus pensamentos moldados à trivialidade, sendo incapazes de perceber a faustosa manifestação natural ou tirar algo proveitoso desse espetáculo. Suas mentes estavam condicionadas àquilo que julgavam importante, o que na maioria das vezes dissertava-se em liames narcisistas. Nada os importava; nada os surpreendia; nada os emocionava... Passavam suas vidas ditando suas preocupações sem qualquer importância e logo caíam no esquecimento, como uma pena que se desprende do corpo da ave e não consegue mais voar.

Contudo, os que se encantavam com o espetáculo da noite, o brilho das estrelas e o romper da aurora, sabiam que seus pareceres nada significava diante da força da natureza. Alguns ainda conseguiam transcorrer seus sentimentos em arte pela emoção contemplativa da singularidade que todos os dias lhes abraçava. A outra parte, por mais que não reproduzisse sua absorção, vivia como os astros do firmamento; ainda que viesse ser esquecida, no instante final cumpria o papel de estrela cadente, concedendo um desejo aos que portassem a sensibilidade de fitá-la.

No mais, tinham o céu oscilante do azul ao negro. Hoje, isso já não importa mais. A superficialidade enraizou-se nos conceitos e opiniões; a maioria escreve a mesma coisa, relata os mesmos problemas e compartilha suas queixas vazias e sem sentidos. Encontra-se ali, rasa e sem razão existencial, encoberta pela couraça superficial que pesa o corpo. O desejo egocêntrico se destaca em seu íntimo, como se tudo girasse em torno de suas questões pessoais. Triste realidade!

Se ao menos olhassem para o céu... Iriam ver as incontáveis estrelas e, talvez, perceberiam que somos como elas. Infinitas e singulares; portadoras de brilho único que formalizam a arte no espaço e no tempo. Tempo este que passa tão rápido para nós, seres humanos, restando-nos contemplar o espetáculo como alguém que tem a sorte de sentar-se no melhor assento do teatro. E lá se fecha a cortina, a estrela cai e se perde na imensidão. Alguém viu? Maravilha! Do contrário, foi só mais uma que cumpriu com esmero sua missão.

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