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Mostrando postagens de novembro, 2021

Brinco nas Entrelinhas

Minha escrita está viciada. A mesma coisa todos os dias.  Nada de novo! Somente reflexões vazias a respeito das frustrações. Permaneço tentando fazer cair a fruta da árvore seca. Balançando galhos no outono, quando todas as folhas já estão no chão. Não sobrou nada para mim. Apenas o zumbido irritante do mosquito querendo chamar atenção.  Os projetos voaram. E eu estou de mãos vazias. Nada mais tenho a oferecer. Foi-se a época de viver aventuras; de rastelar o gramado das ilusões; de cuidar das hortaliças sentimentais; encontrar-me no sagrado das horas compromissadas; viver o coletivo e ser alguém para me orgulhar. Hoje, apenas poeira. Poeira de livros não lidos, estacionados numa estante do sótão.  Sento-me numa cadeira plástica, humilde, para escrever a mesma baboseira. Isso ocorre todas as vezes que as palavras insistem em ecoar seus anseios. Talvez eu tenha apenas aprendido a não ser. Pois foi exatamente isso que aconteceu: eu não fui. E também não sou. Brinco de ser e...

Minha Velha Biblioteca Mágica

Caminhei muito por paisagens opacas e devastadas, em tons cinzentos pela fogueira que incendiou minha biblioteca mágica. Uma fumaça densa pairava no ar e eu quase nada podia ver senão a completa destruição daquilo que eu havia construído por anos. Minha biblioteca estava destruída. E com ela, as histórias de minha infância, os olhares inocentes para o céu de nuvens esbranquiçadas, as brincadeiras na área externa de minha casa, os risos soltos pelas tardes dos inúmeros verões, as cores das minhas memórias... Tudo queimado. Andava por ali, amortecido pela camada de cinzas aos meus pés sem saber aonde ir. Tornei-me um caminheiro solitário nos destroços de minhas fantasias e já não podia mais olhar para o céu. A fumaça ainda não se dissipara, impossibilitando-me encontrar o caminho de volta. Tempos depois, descobri que não havia volta. Era um percurso de mão única e eu tinha de enfrentar aquele campo de batalha sozinho, tendo como maior inimigo os desejos incabíveis que incendiaram minha h...

Ecos Eternizados

Relógio, palavras, amor, alegria, rio de desejos escondidos... Amor! Condicionado... Encaixe de aventuras e desventuras. Estética de gatilhos apinhados nos galhos do esquecimento. Esta é a caixa formadora das palavras não ditas e este caminho não tem retorno.  O que eu escrevi? Fruto do inconsciente que gritou por um instante de distração. Eu queria ser aquela versão minha, perdida nas cavernas do passado. E por um surto repentino de predicativos não pensados, fiz um esboço do jardim que costumava pisar quando meus passos não tinham percorrido os caminhos tortuosos da vida. Hoje sou ecos eternizados na montanha. 11:00h da manhã do dia seguinte: Mais um espetáculo às cegas! Eu nem sei sobre o que escrevi ontem ou se a continuação será coesa. Contudo venho falar que me sinto mais leve.  Depois que os dias de chuva passaram, eu parei para observar o céu. De azul estupendamente vivo. Assim como os sentimentos que semeio. Vivos! Dessa forma eu me faço pelos dias sem fim, nessa cami...

Singela Alegria

Uma alegria misteriosa invade minhas entranhas.  Cravejada de dúvidas sobre os meandros existenciais.  Seria alegria, mesmo?  Ou seria um gotejar lancinante de esperança minguante?  O sonho de um final feliz. A ciranda circundante em danças e cantigas Da infância cujas páginas se perderam Recomeça em tons tímidos de felicidade.  Teria ela o direito de girar e girar, sem medo de existir,  Depois de tantos anos passados?  O passado ficou para trás.  Foi deixado com palavras incisivas E inocentes de um texto esquecido, quase morto, Perdido em meio às novas histórias que o sufocaram. Lembro-me do que ele dizia: Quero passos assertivos!  Sem ao menos saber o que era assertividade.  Mas o tempo passou e os conceitos se refinaram, Bem como as palavras. Elas abriram espaço e permitiram a chegada de sentimentos. Feito este que agora explano: A singela alegria Tímida em essência, mas forte em sua função De colorir os passos de outrora Com cores de...

A Pepita Dourada

Fiz morada em um deserto de fantasmas, cujas muralhas mostravam-se intransponíveis. Era eu e mais ninguém. Qualquer um que tentasse avançar surpreendia-se por pedreiras intrincadas e quilométricas de altura colossal. Por dentro, dunas e dunas de uma areia esbranquiçada feito sal que refletia incertezas de uma vida não vivida. O  falso sal ardia na pele e eu suportava andando sem rumo, enganando-me sob os raios do sol a pino. Aos poucos, a circunferência da muralha ia se fechando e meu espaço ia diminuindo potencialmente. Nem sequer uma ave poderia sobrevoá-lo, já que nenhum ser volátil se mostrava hábil a voar tão alto. Sim, eram muralhas elevadas cercando um deserto onde tão somente eu caminhava carregando acorrentada a legião de fantasmas que criara comigo durante anos a fio. Um peso que não me pertencia, mas que naquele instante se camuflava de suprimento para viver uma mentira. A mentira da fortaleza. O círculo fechado que mais parecia um poço sem fim. Não sei se fui eu que com...

Chão de Terra Molhada

O dia está lindo. O céu se assemelha a um quadro renascentista, em tons azuis contrastados pelo branco das suaves nuvens passageiras. Meu coração está em paz. Observo as plantas e percebo tamanho ensejo à luz do sol que invade a varanda. As semanas que se foram bagunçaram meus pensamentos. Minha mente havia se transformado numa carvoaria, queimando as últimas fontes de preocupações que enegreciam meus pensamentos com a borralha da insensatez.  Agora ponho tudo em seu devido lugar. Ritmando-me à música ecoada ao longe, como pingos prateados de uma chuva que não existiu. Apenas em sonhos.  Sonhos de uma tarde que passou. De gotas escorrendo pelos vidros, fazendo caminho em meio à miríade de iguais.  Talvez eu fosse tais gotas. Tentando me esquivar das semelhantes em busca de uma rota única ao chão de terra molhada.  Falácia. Pensei tanto em traçar um esboço resplandecente ao fascínio que não fui capaz de me mover. Estacionei-me, e até hoje permaneço no mesmo lugar....

O Domo Transparente

Ressignificação da realidade paralela. Uma gota caindo devagar em um balde chegando ao seu limite: ansiedade. Equilíbrio entre transbordar e manter-se intacto.  Ao menos posso usar a alta tensão superficial do líquido ao meu favor. O vento atravessa o recipiente gotejado e nada acontece Senão uma dança gelatinosa do domo transparente. Mais uma gota que se junta ao espetáculo. E outra... Todas ligadas por hidrogênio; coesas e polares. Por vezes, sinto vontade de chutar o balde sobrecarregado. Contudo não saberei até onde irá a cúpula imprevista que insiste em existir. Por quê? Por fim, olho para cima e vejo uma estalactite se formar. Seu significado eu não sei Mas está prestes a furar o domo iludido em esplendor. Talvez seja a hora, de fato. Fim do ato. E a cortina se fecha para ninguém. A lagrima do menestrel frustrado caiu e a cúpula sucumbiu Pelo chão da caverna escura. O balde continuou cheio até ser chutando No pico de adrenalina Ecoando batidas pelo vazio. Assim, a estalactite...