A Pepita Dourada

Fiz morada em um deserto de fantasmas, cujas muralhas mostravam-se intransponíveis. Era eu e mais ninguém. Qualquer um que tentasse avançar surpreendia-se por pedreiras intrincadas e quilométricas de altura colossal. Por dentro, dunas e dunas de uma areia esbranquiçada feito sal que refletia incertezas de uma vida não vivida. O  falso sal ardia na pele e eu suportava andando sem rumo, enganando-me sob os raios do sol a pino. Aos poucos, a circunferência da muralha ia se fechando e meu espaço ia diminuindo potencialmente. Nem sequer uma ave poderia sobrevoá-lo, já que nenhum ser volátil se mostrava hábil a voar tão alto. Sim, eram muralhas elevadas cercando um deserto onde tão somente eu caminhava carregando acorrentada a legião de fantasmas que criara comigo durante anos a fio. Um peso que não me pertencia, mas que naquele instante se camuflava de suprimento para viver uma mentira. A mentira da fortaleza. O círculo fechado que mais parecia um poço sem fim. Não sei se fui eu que comecei a crescer ou se os muros começaram a sumir. Sei apenas que pouco a pouco fui sentindo um aperto no peito pela única certeza que se firmara naquele instante. Havia conquistado nada além do que uma avassaladora solidão. E não havia mais tempo de correr atrás dos risos e conversas perdidas. Estava sozinho, em um espaço cada vez menor, onde o único som ecoado era o escárnio dos fantasmas jocosos que insistiam em rir do que eu havia colhido depois de anos de plantio. Nada além do vazio. Quando fui grande o bastante para quebrar as muralhas e espalhar aquela areia acumulada, o tempo já havia passado. E com ele se fora também minha juventude e o ânimo por viver aventuras. Corri mundos atrás do tempo que se perdera, mas tudo em vão. Eu nada encontrei. E já não era o mesmo de outrora. Contudo, nenhuma lágrima escorreu por meu rosto. Mantive-me de pé e aceitei o destino. O mesmo que usei para tecer a teia e encontrar a pepita dourada no rio de minha existência. Só então pude entender o real valor das oportunidades. Àquele instante o achado reluzia mais do que o sol no firmamento, dando-me a claridade necessária para desfazer todas as correntes com as quais prendia a legião de fantasmas que me seguia pelas estradas da vivência. Pela primeira vez, encontrava-me leve e solto de amarras. Então tive forças para chorar. E chorei pelos anos que vivi dentro da muralha intransponível enquanto uma floresta crescia ao entorno. Até que resolvi aceitar o que passou. Fiz as pazes com o passado. Sequei as lágrimas. E continuei caminhando. Dessa vez, sem fantasmas. À frente, um jovem rapaz se projetara e eu tive a oportunidade de abraçá-lo, dizendo-lhe palavras de carinho e conforto e sugerindo-lhe passos assertivos na caminhada. Despedi-me e segui minha viagem. Assim que cheguei às margens de um rio, pude ver-me nas águas. Foi então que eu percebi que havia me encontrado nas páginas da história, retirando das entranhas da alma o perdão do qual tanto precisava. Havia me perdoado. E naquele instante um rio começou a correr em mim, desaguando no mar das experiências que coletara. No fim, entendi que minha fortaleza, sobretudo, era minha essência camuflada em tijolos que não poderiam se quebrar antes da hora. E que o tempo não fugiu de minhas mãos, ele apenas contornou o esboço do mapa que me fizera encontrar a tão quista pepita dourada. Assim, no tempo certo, quebrei as paredes do inconsciente e encontrei uma floresta para desbravar. Estava, mais uma vez, vivendo no devido compasso das horas.

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