Minha Velha Biblioteca Mágica
Caminhei muito por paisagens opacas e devastadas, em tons cinzentos pela fogueira que incendiou minha biblioteca mágica. Uma fumaça densa pairava no ar e eu quase nada podia ver senão a completa destruição daquilo que eu havia construído por anos. Minha biblioteca estava destruída. E com ela, as histórias de minha infância, os olhares inocentes para o céu de nuvens esbranquiçadas, as brincadeiras na área externa de minha casa, os risos soltos pelas tardes dos inúmeros verões, as cores das minhas memórias... Tudo queimado. Andava por ali, amortecido pela camada de cinzas aos meus pés sem saber aonde ir.
Tornei-me um caminheiro solitário nos destroços de minhas fantasias e já não podia mais olhar para o céu. A fumaça ainda não se dissipara, impossibilitando-me encontrar o caminho de volta. Tempos depois, descobri que não havia volta. Era um percurso de mão única e eu tinha de enfrentar aquele campo de batalha sozinho, tendo como maior inimigo os desejos incabíveis que incendiaram minha história. Eu os alimentei e eles se viraram contra mim. Arruinaram o que eu tinha de mais mágico: minha biblioteca.
Quando, por fim, encontrei uma nascente, pude lavar minhas mãos. Lavei também toda a culpa que se projetava em meus ombros. Eu não tinha como saber os rumos do incêndio. Era menino, disperso e criativo, brincando com as chamas, transformando coisas ao meu redor... Não tinha como saber! A nascente então livrou-me das mãos manchadas da borralha; foi quando os primeiros tons de azul ressurgiram no céu. Daí que entendi o verdadeiro mistério: sempre é tempo de recomeçar a construir uma nova biblioteca.
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