Chão de Terra Molhada
O dia está lindo.
O céu se assemelha a um quadro renascentista, em tons azuis contrastados pelo branco das suaves nuvens passageiras.
Meu coração está em paz.
Observo as plantas e percebo tamanho ensejo à luz do sol que invade a varanda.
As semanas que se foram bagunçaram meus pensamentos. Minha mente havia se transformado numa carvoaria, queimando as últimas fontes de preocupações que enegreciam meus pensamentos com a borralha da insensatez.
Agora ponho tudo em seu devido lugar.
Ritmando-me à música ecoada ao longe, como pingos prateados de uma chuva que não existiu. Apenas em sonhos.
Sonhos de uma tarde que passou. De gotas escorrendo pelos vidros, fazendo caminho em meio à miríade de iguais.
Talvez eu fosse tais gotas. Tentando me esquivar das semelhantes em busca de uma rota única ao chão de terra molhada.
Falácia.
Pensei tanto em traçar um esboço resplandecente ao fascínio que não fui capaz de me mover. Estacionei-me, e até hoje permaneço no mesmo lugar.
A terra secou e as flores cresceram. Pude vê-las de longe, alcançando o auge da formosura.
E agora que elas viram suas faces em busca do astro-rei, percebo que devia ter escorregado pelos vidros das janelas fechadas que compuseram o cenário de outrora.
Hoje, com tudo escancarado, o sol secou as gotas que não atingiram a terra. E eu me transformei numa lembrança de um caminho não traçado.
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