O Beija-flor e a Tempestade

Hoje, pela manhã, quando abri a janela, lá estava ele. 

O beija-flor. Circundando as flores a procura de uma que mais lhe agradasse.

O pequeno animal ia e vinha, parava no ar, e me ignorava no parapeito.

Para ele, eu não existia. 

Apenas flores e mais flores, compondo a orquestra de cores do pequeno e sorrateiro jardim.

Depois, a pequena ave voou e uma forte chuva começou a cair.

A poesia da manhã havia acabado com a tempestade.

Onde estaria o beija-flor em meio àquela borrasca?

Foi então que me veio à mente o motivo que me levava a compor versos lúdicos em tons vibrantes:

A ilusão de uma vida inexistente.

Estava na hora de eu mudar. 

Enxugar as palavras, tirar os afrescos barrocos, criar uma flecha e acertar o alvo.

A tempestade chegou e o beija-flor se foi. 

Toda pompa honrosa de cores já não fazia mais sentido sob o firmamento acinzentado.

Minha poesia se encontrava no azulejo frio...

Na luz fluorescente;

Nos móveis de pó de serra;

Na poeira acumulada;

Na mediocridade das horas;

No tempo não aproveitado;

No passado não perdoado;

Na consciência pesada;

Na vida estraçalhada

E no compasso desregulado do relógio de pilha barato.

Foram-se os beija-flores. Bem como as flores...

Foi-se a tempestade, restando-me apenas uma ventania nas folhas dos arbustos.

O tempo é assim:

Arranca-nos a fantasia cultivada pelas raízes e destrói a armadura outrora pintada de ouro.

Contudo, permite-nos acender uma vela solitária.

Digo isso pois acabei de olhar para o mesmo jardim que abrigara o beija-flor. 

E, em seu lugar, um pequeno gato malhado repousa sobre as flores intimidadas pela presença felina.

Lá ele permanece, fazendo do silêncio sua companhia. 

Nada mais posso esperar senão o cair da noite.

Por hoje, as palavras se foram com a chuva.

Retornarei quando voltar a chover.

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