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Mostrando postagens de março, 2022

Status por Status

Estou muito superficial para falar de amor. Na verdade, estou muito superficial para falar de tudo. Quis agora começar um texto buscando entender o que se passa comigo. Fui mesquinho demais para saber sobre as nuances de tal complexidade. Talvez nada esteja se passando. Parece que tudo voltou como era antes. E se eu havia aprendido que só sinto aquilo que me permito sentir, já me esqueci. Voltei à sombra da ignorância. O dia passou, a noite chegou e se foi outra vez. Agora outro dia dança a tristeza da saudade. Para mudar de mentalidade, foi preciso mudar o meu quarto. Trocar os livros de lugar, arredar a cama, tirar a poeira, fazer nova distribuição do velho modelo que se estendia há meses. As velhas lembranças, os velhos fantasmas... Sigo na esperança de que eles se foram de vez. Nesses dias tenho trazido uma melancolia nas palavras. Essa simplicidade toda esconde uma ferida. A capacidade poética foi-se embora. Deu lugar à trivialidade de um contexto extremamente normal; expressão de...

Tudo para o Alto

Se eu falar que brinco com as palavras, estou mentindo. As palavras brincam com meus sentimentos, e eu sou domado por elas. Elas escolhem quando vêm e vão. Escolhem o que desejam mostrar e o que escondem. Eu sou coadjuvante. Batedor de teclas. Vivo às sombras da história. Inseto noturno, incomodando os ouvidos de quem tenta dormir... Escritor de meia-tigela vestindo-se de falsa cultura. O mais ignorante de todos os seres, tentando encontrar frases que se encaixam no vazio de sua existência. Uma bagunça... Em todos os sentidos. Já quis viver da verdade um dia, mas ela me feriu gravemente. Desde então ando de mãos dadas com a ilusão. Pra quê? Não sei. Só sei que eu me acostumei assim. E agora estou envergado com o peso da vergonha.  Meus ombros doem, e eu não sei o caminho de volta para casa. Se algum dia eu tive uma, eu não me lembro. Sinto frio, solidão, desamparo...  Ando sozinho na beira do precipício. A qualquer instante vejo que posso cair e tenho a impressão de que as pal...

Fragmento do Tudo e do Nada

Tentei escrever alguma coisa, mas lembrei que tudo já tinha sido escrito. Daí refleti sobre o conceito de tudo e nada obtive. No fim, escrevi tudo sem ter nada e nada tive escrevendo tudo. Que coisa clichê! Parece até uma daquelas frases de pano de prato.  E para piorar, a rinite resolveu atacar. Vamos ser sinceros aqui: a real é que o conceito de tudo está bem próximo do de nada. Ouso dizer que ocupam o mesmo lugar.  Quem tem tudo, de nada precisa. E o montante se reduz ao vazio de uma existência pesada. Na busca incessante pelo tudo, estamos mais perto do nada. É um paradoxo.  Quanto mais próximos do tudo, mais distante ele se mostra. Sempre é bom que falte algo para corrermos atrás. Contudo, a sabedora faz com que enxerguemos o equilíbrio entre as partes. Assim podemos preencher os espaços vazios com o vazio que lhes cabe. É muito importante entendermos que o desejo não pode se viciar em obter sempre mais. O acúmulo é inimigo da liberdade.  E a liberdade está mais...

O Personagem que não Existiu

Tentei pensar em um personagem para refletir nele algumas coisas que não entendia em mim. Ele não tinha história, árvore genealógica, base para se fundamentar ou alegoria para o motivar. Contudo, tinha minha vontade de vê-lo vivo. Coitado do personagem; morreu antes que pudesse dizer qualquer coisa. Ou que pudesse andar pelo jardim florido que havia criado exclusivamente para ele, removendo as folhas secas caídas das árvores ao redor. Ele escutaria o canto das aves como ninguém. Contemplaria o horizonte como quem contempla o paraíso da eternidade.  Mas sua eternidade durou pouco. Agora surge a questão: para onde os personagens não escritos vão? Se não há relatos deles, eles não existiram. Como o meu personagem, desconhecido por toda a humanidade. O fato é que o sinto sorrir pelos caminhos que tracei na mente para fazê-lo percorrer no íntimo do desenvolvimento, tornando-se algo grandioso. Daí lembro que ele não existe. Em nenhuma história, em nenhum papel... Palavras para ele não va...

A Rua Vazia

A rua está vazia. As pedras refletem uma solidão vivente, caminheira dos sonhos perdidos que foram abandonados na sarjeta. Minha vontade sempre foi a de pular a janela e sair por aí catando todos esses sonhos carpideiros e devolvendo-os a quem os perdeu. Mas não posso. Não posso, pois também perdi o meu. E no mais, seria o mesmo que tentar devolver uma lágrima aos olhos. Por isso eles vagam pela rua, lustrando as esquinas, lambendo as calçadas, recolhendo-se em buracos agressivos pela falta de cuidado, sozinhos. A rua segue vazia. Ninguém para prestar consolo aos sonhos esquecidos. E penso comigo: Talvez eu seja alguém contornando os limites da anormalidade por estar encarando uma janela que vive me mostrando um rio de lágrimas pelos desejos que já se foram. E faço isso pois tenho esperança de encontrar o sonho que perdi. Se ele está por aí, eu não sei. Conquanto sinta sua presença latente nas vielas escuras as quais não posso ver. O fato de haver outros sonhos vagando à minha frente, ...

Explosões do Ego

Aquela mesma história — da culpa de não ter vivido a vida conforme gostaria — rolou para longe e caiu fundo, sabe-se lá onde. Depois eu entendi que vivi do jeito certo, que coube perfeitamente no espaço do meu cerne latente e bruto. Eu chorei rios, sim; vivi a solidão nos prados dos gritos inaudíveis; sentei-me de frente para o mar sem entender as batidas das ondas; era tudo superficial e obtuso. Até que eu adormeci e sonhei com alguém preso pelas grandes que soldei nos limites do meu coração. Não quero escrever sobre isso. O texto ganhou vida. Ele está conduzindo o percurso das palavras e eu não me sinto pronto. Vou parar, por ora. Respirar... E tentar aprender algo substancial para ocupar minha mente. O que vivi passou. O que vivo são explosões do ego tentando tomar conta de novo. Mas ele não vai conseguir. Apesar da sua capacidade de se camuflar. Não o darei voz.  Cada vez mais consigo parar e observar as folhas da hera avançando para dentro da janela do meu quarto. Trazem um si...

Carpideira Frustrada

Eu consegui fazer algo bom hoje. Não é todos os dias que eu consigo, mas hoje eu consegui.  Rasguei qualquer desculpa que vinha assinando como contrato mal pago dos últimos tempos. Transformei os papéis em soluções. Vi que minha mente tinha um poder escondido e era nela que devia focar.  Palavras em folhas esquecidas nada valem. Trazem desesperança para quem tem sonhos. E eu, como sonhador, não posso carregar palavras esquecidas. Vivi para aprender a retirar do nada a faísca que incendeia o celeiro da preguiça. Deu certo! Não obstante o seu caminhar sem rumo pelas partes do meu corpo, a preguiça como carpideira ainda busca um velório para chorar. Ouso dizer que ela não encontrará o que procura.  Os velórios cessaram e os enterros já foram feitos. A partir de agora, é só renascimento. Plantio e colheita. A carpideira frustrada terá de se reinventar. Não poderá ser mais reconhecida como a preguiça açoitada pela descrença de conseguir realizar sonhos. Seu manto terá cores de...

Tudo Explodiu

Naquela hora tudo explodiu: pensamentos de uma mente que não pensava mais. Que passava horas na frente da televisão assistindo desenhos para fantasiar a realidade tão vazia. A força de vontade escorreu pelas ladeiras onde eram projetadas as sombras de transeuntes apressados para ganharem a vida. Eu pude ver tamanho desespero. Eles não sabiam que a vida já estava ganha. E que a pressa era sobretudo uma desculpa para ocupar as horas lancinantes que machucavam quando não preenchidas. Daí aprendi que para se preencher as horas basta se sentar em um canto qualquer do quarto e fechar os olhos. Os pensamentos, como ondas do mar, vão e vem até que depois de um tempo surge a calmaria. O barco é capaz de navegar tranquilamente pelo cristal de águas transparentes.