O Personagem que não Existiu
Tentei pensar em um personagem para refletir nele algumas coisas que não entendia em mim.
Ele não tinha história, árvore genealógica, base para se fundamentar ou alegoria para o motivar.
Contudo, tinha minha vontade de vê-lo vivo.
Coitado do personagem; morreu antes que pudesse dizer qualquer coisa. Ou que pudesse andar pelo jardim florido que havia criado exclusivamente para ele, removendo as folhas secas caídas das árvores ao redor.
Ele escutaria o canto das aves como ninguém. Contemplaria o horizonte como quem contempla o paraíso da eternidade.
Mas sua eternidade durou pouco.
Agora surge a questão: para onde os personagens não escritos vão?
Se não há relatos deles, eles não existiram. Como o meu personagem, desconhecido por toda a humanidade.
O fato é que o sinto sorrir pelos caminhos que tracei na mente para fazê-lo percorrer no íntimo do desenvolvimento, tornando-se algo grandioso.
Daí lembro que ele não existe. Em nenhuma história, em nenhum papel... Palavras para ele não valeram de nada.
E ele não pôde abraçar o mundo conforme sonhei.
A verdade é que os dias foram passando, e eu fui fazendo uma coisa daqui e dali sem perceber que o personagem foi se apagando aos poucos ,até sumir.
E eu só notei sua ausência quando sentei para escrever a história.
Cadê a história? Cadê as páginas preenchidas?
Seria então o vazio uma forma de sentir os sonhos perdidos? O tempo não corrido? Emoções fadadas ao delírio do não existir?
E falando em existir: como pode alguém morrer antes de desempenhar tal proeza? A de existir!
Quando abri a caixa de palavras, ela já estava vazia. Quando me deitei, já havia sonhado e esquecido. Sensação de equilíbrio entre o encontrado e o perdido.
No fim vi que não tinha nada nas mãos. Nada nos sonhos, nas palavras, na mente e nas histórias que não existiram mas que me fizeram sentir... Sabe-se lá o que.
O personagem, como entendi, foi nada mais do que uma voz silenciada buscando frestas para se expressar em terceira pessoa. Já que na primeira jamais teria coragem de assumir suas dores.
Talvez tenha sido ele o mais profundo e bem construído de todos os personagens. Apesar de não ser escrito nas páginas dos livros, fez sua história no vazio e no escuro de uma essência buscando por respostas e peças perdidas de um quebra-cabeça incompleto.
Se o personagem de fato não existe, quem caminha pelo jardim? Quem sorri para as cores do céu que só existem na minha mente?
Vou parar por aqui, fingindo a existência de um reflexo sem sequer haver espelhos.
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