A Rua Vazia

A rua está vazia. As pedras refletem uma solidão vivente, caminheira dos sonhos perdidos que foram abandonados na sarjeta.

Minha vontade sempre foi a de pular a janela e sair por aí catando todos esses sonhos carpideiros e devolvendo-os a quem os perdeu. Mas não posso.

Não posso, pois também perdi o meu. E no mais, seria o mesmo que tentar devolver uma lágrima aos olhos.

Por isso eles vagam pela rua, lustrando as esquinas, lambendo as calçadas, recolhendo-se em buracos agressivos pela falta de cuidado, sozinhos.

A rua segue vazia. Ninguém para prestar consolo aos sonhos esquecidos.

E penso comigo:

Talvez eu seja alguém contornando os limites da anormalidade por estar encarando uma janela que vive me mostrando um rio de lágrimas pelos desejos que já se foram.

E faço isso pois tenho esperança de encontrar o sonho que perdi.

Se ele está por aí, eu não sei. Conquanto sinta sua presença latente nas vielas escuras as quais não posso ver.

O fato de haver outros sonhos vagando à minha frente, não reduz aquele que um dia semeei nos capítulos pretéritos da minha história. Entendo que são sonhos que não me pertencem.

E assim como sigo incansavelmente na busca pelo meu, outros também seguem buscando esses que transitam na rua de frente para minha janela.

Desse modo, é estranho pensar que os sonhos de outrem sequer sentem o pesadelo da falta que fazem. Eles apenas vagam sem rumo.

Ao contrário, quem os abandonou, seja por descaso ou descuido, segue precipitado nos parapeitos das janelas da alma, buscando qualquer coisa que se assemelhe àquele que um dia fez morada nos limites da essência.

No entanto, todos seguem cansados de avistar ruas vazias de sonhos esquecidos.

Ninguém teve coragem de pular a janela.

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