Texto Aleatório
Eu navego na noite escura, procurando a centelha de esperança naufragada.
Não posso nunca parar de escrever; a vida continua e minhas palavras também.
Há muito isso aqui se transformou em meu diário particular. Talvez eu devesse mudar o nome de Penasso Cronista para Diário de um Escritor Falido.
Mas por sorte meu orgulho me impede. Já estou cansado dessa ladainha de querer escrever sobre alguns assuntos os quais não domino. É uma sensação péssima. Mas como as canetas contornam as extremidades de um desenho torno, eu consigo contornar os nós de uma linha embolada para que se assemelhe a uma espiral. De ideias, talvez.
Também estou cansado de falar e escrever "talvez". Talvez, e mais nada.
Talvez eu tenha passado no concurso.
Talvez eu escrava um livro.
Talvez eu chore à noite.
Talvez eu acorde ao meio-dia.
Talvez a chuva cesse lá fora.
Talvez eu durma sob a meia-luz.
Nada de certezas. O celular já não toca. Os e-mails não chegam. As páginas não viram. Mas a cabeça dói. Não por afazeres acumulados, mas pelo vazio de ter feito o melhor e, ainda assim, não ter feito o suficiente.
Eu já nem me conheço mais. Já não sei ouvir meu coração. Tampouco sei para que escrevo. Escrevo para falar sobre algo que já passou, embora ainda esteja vivo dentro de mim, como uma lareira soltando cinzas pela sala de minha casa.
Eu sequer tenho uma lareira.
Vejam: uma certeza! A de que estou cansado. Cansado de me cansar. Todos dizem que preciso semear a gratidão pelo que tenho. Tudo bem. Sou grato. Mas e depois? O que vem? Os "nãos" da vida... Os projetos falidos, os sonhos arruinados, as escolhas erradas.
Ao menos eu tenho um teto? Comida? Energia para tomar um banho quente? Ou isso tudo não passa de desculpas para evitar um desespero contínuo? Perguntas atrás de perguntas. Já disse: não me conheço mais.
A chuva parou, mas a água ainda escorre pela calha. Eu posso ouvi-la.
A prova também acabou. Mas eu ainda ouço o resultado martelando na minha mente. Meia — meia! Só isso. Para quem estudou por horas a fio, dedicando-se ao extremo, ter conseguido apenas sessenta e seis pontos foi frustrante. Contudo foi isso que eu consegui. Falhei comigo mesmo, e com aqueles que amo. Mas não vou me culpar. Fiz o meu melhor.
E se esse texto nasceu de uma noite aleatória em um horário aleatório, ele nada mais é do que um texto aleatório de uma vida aleatória. Sem nada a acrescentar. Apenas tempo a perder.
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