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Mostrando postagens de fevereiro, 2022

Areia do Rio

Estou respirando melhor os ares de uma vida tranquila. Vendo os dias mais coloridos como reflexos de uma fantasia outrora colhida em pomares carregados. Durou pouco. Um lapso no tempo. E agora? Será que os pomares acabaram? Ou será que eu perdi a capacidade de colher? Tudo vira dúvidas em uma mente conturbada.  O dia continua claro e esplendoroso. Trazendo consigo a luminescência de uma história inacabada. E eu sigo aqui... Escrevendo a mesma coisa, sempre e adiante. A minha história não mudou, apesar das chuvas terem cessado. Os rios abaixaram suas águas e eu pude ver o fundo: pedrinhas coloridas esparramadas pelo leito. Em cada uma, uma lembrança.  Depois de recolhê-las, só encontrei areia grossa que machucava meus pés. As águas foram aumentando, e quando dei por mim, elas já batiam em meu pescoço. Só me restou nadar para sobreviver.  Quando cheguei à margem, foram-se as pedrinhas coloridas e as lembranças de um passado longínquo. Porém, permanecia inteiramente sujo de ...

Ainda Tenho Tempo

São quase quatro horas da tarde e, por incrível que pareça, eu não vi o dia passar. Acordei, li um livro, meditei e organizei os pensamentos. Por umas vinte vezes, até agora, fui açoitado por fantasmas. Mas estou controlando. Eles estão vindo cada vez menos e isso tem me deixado feliz. Queria transcorrer longos parágrafos sobre o foco que eu tenho desempenhado mas ainda não consigo. Uma parcela minha permanece presa àquilo que me distrai. E eu tenho trabalhado demasiadamente para libertá-la.  Sabe do que eu preciso? De ocupar a mente. Ela própria está se transformando nos fantasmas dos quais eu tento fugir. Por sorte, o texto agora está mais descontraído. A vida está mais agitada lá fora, não obstante a minha permanência inerte dentro de três metros quadrados. Sobre isso, eu já fiz as pazes com o espaço. O que me assombra agora é uma série de projeções nas paredes vazias da minha alma. Projeções que não dizem respeito a mim. Não adianta eu chorar pela vida não vivida, é preciso lev...

O Dia Ainda Está Lindo

Vi que só escrevo a tristeza; então aí está um ponto de luz: o dia está lindo. Eu, mais uma vez, sentado numa cadeira, venho aqui para me dizer que a fonte da minha alegria momentânea é a beleza de um dia que se esgota fora das paredes que me cercam. A luz entra, o quarto se escancara, a vida passa, o relógio para, o desânimo se dissipa e eu colho frutinhas de pomares imaginários. Pensei tanto que esgotei minhas forças. Foquei-me numa paisagem que já não existia e só obtive frustração. Mas agora é momento de alegria, afinal, o dia está lindo.  Vou ser sincero: acho que estou perdido. Mas é segredo. Pois nem eu mesmo sei ao certo. Posso me ver logo ali na frente, mas ao mesmo tempo posso não ver. Sumo nas contingências e na expansão das oportunidades. E quanto mais o universo se expande, mais eu sumo dentro de mim. Apesar dos pesares, o dia está lindo. Vou me deitar um pouco e me trancar nos pensamentos. Tentar limpar na casa suja. Depois torno a abri-la à vida. Por isso não termina...

Perdi minha Armadura

Depois de muito meditar e buscar respostas escondidas, acabei me perdendo em perguntas mais uma vez. Coração apertado, mente frágil aos meandros das semanas que se afunilam na ampulheta da vida. É um caminhar sem chegada, um voo sem sustentação, um suspiro sem alento. Ela está entre nós; a que desperta os fantasmas soterrados. Fantasiada de satisfação. Seja bem-vinda, ou não, ansiedade. Não tenho mais tempo para delírios. Se algum dia lutei em um campo de batalhas, perdi minha armadura. Se deixei de ser quem sou, esse alguém perdeu a luta. Pois se agora existe uma batalha dentro de mim, esta é pela busca do meu verdadeiro eu. Tão estreito, tão difícil, remoendo ossos enterrados por outros soldados. Seria eu um espectro vagante no cemitério do passado? Não fui capaz de selar a paz? Outrora dizia que me encontrava com a mente sã. Então, sanidade significa tempestade em alto-mar. Pronto, conceitos nada valem. Nada faz sentido agora. Parece que eu desconstruí uma muralha para ser livre, ma...

Andar por aí...

Entender-me é pensar claramente em altas montanhas tocando o céu. A escalada é a chave da compreensão que faltava. Aos poucos, o silêncio aumenta, a claridade, a beleza, a paz, a serenidade, a suavidade e o amor ao percurso. A cada passo, uma nova descoberta. Um novo motivo para seguir. Entender-me é caminhar nessa jornada difícil e exaustiva, porém bela. Beleza que não se faz em nuvens passageiras, mas se perpetua nos grandes cumes do conhecimento cristalino. Ele brota nas nascentes que estavam lá, escondidas, desde o início de tudo. Entender-me é saber que nem tudo aquilo que escrevo é com palavras de sucessivos "tec, tec, tec, tec". Existem aquelas palavras que não foram ecoadas ou impressas em telas luminosas. Também não estão nessas montanhas das quais falei. Estão navegando por aí, nas pequenas embarcações do pensamento involuntário. Quer saber? Esse texto não me agrada. Está cheio de regras, mesmices e conceitos fadados à exaustão. Ontem quis correr por aí, mas acabei ...

O Pássaro Que se Calou

A história de um pássaro que vivia sozinho em uma árvore só. Não que isso fosse ruim à primeira vista, porém trazia uma dose de descrença à ave que muito prezava por aventuranças. Afinal, era ela portadora de asas capazes de voar por aí, de galho em galho, conhecendo o mundo flutuante de seus sonhos. Mas estava presa naquela árvore. E era nela que se fazia pássaro. A árvore era grande, frondosa, opulenta diante das demais, de verde estonteante e galhos intrincados ziguezagueando as entranhas de seu existir. Era linda, de fato. Reflexo de fortaleza e conforto. O pássaro tinha ela só para si, e mais ninguém… Por mais que a árvore tenha sido de outras aves antes, agora era só dele. Desde quando chegara, nenhuma outra ousou fazer ninho em sua copa. Pois bem! Tratava-se de um pássaro afortunado por ter encontrado tamanho tesouro numa floresta tão grande. Mas ninguém sabia o que se passava dentro da cabeça do pequeno animal. E é aqui que eu começo: Eu sou a árvore! E vou dar a minha versão. ...

Costureiros das Críticas

Estou jogado, Não às traças, Mas ao reflexo do espelho Que me recuso a olhar. A noite não mais significa nada Pois carrego as estrelas dentro de mim. Minha escrita perdeu valor aos olhos do mundo, Perdeu as bases, As curvas, Perdeu as estribeiras. Não foi digna de pontos Aos costureiros das críticas. Mas... Para mim, minha escrita segue sendo O meu maior tesouro. Meu coração não pode esperar; Ele foi feito apenas para sentir. E navegar nas horas não é sentir. É viver esperando o dia nascer bonito, Mas esquecer que o sol está dentro de si.

Valeu a Pena

Um dia você vai sentir falta do início; Do desafio das incertezas; Da mente se equilibrando entre o medo e a coragem de dar um passo à frente.  Você vai sentir falta dessa sensação de primeiro capítulo; Da história sendo escrita; Da música sendo composta em tardes chuvosas sem ninguém para ouvi-la.  Você sentirá falta de quando faltava, E você se esforçava para preencher os buracos vazios.  Sentirá falta da inocência em querer se transformar naquilo que um dia sonhou; Dos passos imprecisos na areia; De caminhar regando esperanças pelo percurso como flores coloridas de um sonho depois da curva.  Você sentirá falta de como interpretava a vida — que nada se assemelhava a um conto de fadas; Também sentirá falta da sensação de fazer o possível para pular os capítulos e logo parar no ápice do prestígio e honradez.  Mas entenderá que cada detalhe compõe uma história fantástica de disponibilidade aos sonhos. Você não perceberá a transição. Não será um passe de mágica....

Estrelas da Mente

Percebi minha mente como um verdadeiro aglomerado de estrelas.  A constelação trepidante de astros calhados na nebulosa que vacila pelas entranhas da minha existência. Percebi também que conheço pouco, quase nada, dessa galáxia perdida dentro da minha cabeça pensante.  Vulcão em constante erupção de ideias insignificantes, reminiscências dilacerantes, sugestões empolgantes, lágrimas marcantes, risos cortantes, probabilidades traumatizantes e tudo aquilo que antes, perante, de irradiante desejo, se transforma em entulho expelido pela lava fervente de uma mente enlouquecida que pouco viveu apesar de muito ter visto e imaginado nas suas caldeiras mais profundas. Eu enlouqueci e deixei meu coração parar.  Rasguei os papéis, perdi o norte e caí diante do abismo.  O universo latente se escureceu e permaneceu escondido por anos até eu redescobri-lo por um insignificante ponto de luz ao longe.  Assim, puxei a ponta dessa linha arrebentada e descobri a imensidão do que e...

Semana Feliz

Fim de uma semana feliz. Esqueci as palavras, as letras, os problemas e os fantasmas da minha mente. Pensei na vida, nas cores, no toque de existir e no amor corrente no rio da existência. Enxerguei as flores refletidas no espelho da alma, que compunham o grande espetáculo da presença. Que semana incrível. Sem medo de ser eu mesmo. Aquele menino descalço andando pelas calçadas da rua onde me entendi gente. Porque, na verdade, eu fui alguém. Ocupei espaço, andando por aí fazendo laços nas entrelinhas de um final quase feliz. Agora recorro as palavras que outrora deixei de lado para viver. A semana passou, a tarde chegou, e a noite se aproxima abocanhando as estrelas para dentro de si.  Tento viver leve mas carrego comigo o peso de lembranças felizes que cismam em permanecer. No vazio elas brincam de iludir o presente, como miragens num deserto de acontecimentos. Já não sei se deito para sonhar ou se aguardo o espelho me dizer o que fazer nesse campo de batalha.  Meus olhos mare...

Caverna Colorida

A tarde está se estendendo lá fora, enquanto eu faço as pazes com as quatro paredes. Eu realmente precisava trocar as lentes. Enxergas as cores de paisagens choradas em rios, montes, galhos e folhas dentro de memórias imperfeitas.  Sobrevivi ao temporal reminiscente. Vivi para ver o sol nascer mais uma vez dentro do meu coração. Não me resumo a um quarto com livros e meia luz para escrever; não sou vitima de qualquer negligência que seja; não suponho que tenha sido destruído quando minhas pernas não aguentaram o peso que carregavam; tampouco lamento por cicatrizes abertas nos tempos de solidão diante das linhas de trens desgovernados, norteando-se aos abismos que me precipitei.  Hoje posso escrever novas páginas, pois cheguei ao fundo. Aqui tem peixes coloridos, luzes de gemas cravadas nas paredes, água cristalina e melodia aos meus ouvidos. Aqui posso escrever quem sou e aonde vou. Brincar de menino mais uma vez, correndo por entre as poças da caverna colorida. Vestir-me com ...