O Pássaro Que se Calou
A história de um pássaro que vivia sozinho em uma árvore só.
Não que isso fosse ruim à primeira vista, porém trazia uma dose de descrença à ave que muito prezava por aventuranças.
Afinal, era ela portadora de asas capazes de voar por aí, de galho em galho, conhecendo o mundo flutuante de seus sonhos.
Mas estava presa naquela árvore. E era nela que se fazia pássaro.
A árvore era grande, frondosa, opulenta diante das demais, de verde estonteante e galhos intrincados ziguezagueando as entranhas de seu existir. Era linda, de fato. Reflexo de fortaleza e conforto. O pássaro tinha ela só para si, e mais ninguém…
Por mais que a árvore tenha sido de outras aves antes, agora era só dele.
Desde quando chegara, nenhuma outra ousou fazer ninho em sua copa.
Pois bem! Tratava-se de um pássaro afortunado por ter encontrado tamanho tesouro numa floresta tão grande.
Mas ninguém sabia o que se passava dentro da cabeça do pequeno animal.
E é aqui que eu começo:
Eu sou a árvore! E vou dar a minha versão.
— Passarinho! Você acha mesmo que eu não sei o que sente? Vê a todo instante essa grande floresta para explorar e se encontra acuado por ter de viver junto a mim para sempre. Vez ou outra você enxerga isso com pesar, mas te digo que não precisa ser assim. Tenha calma! Eu vou te proteger.
“O mundo realmente é muito grande e cheio de oportunidades para nos deleitarmos. Afinal, somos livres, não é? Errado. Você é livre! Eu não. Sou presa ao solo e onde nasci devo morrer. Você pôde escolher pousar em mim e fazer morada. Que escolha eu tive senão o acolher? Pois é assim que a vida funciona. Uns têm oportunidades e nada fazem; outros não tem e tudo querem. Mas se uma coisa eu posso te afirmar é que desde quando fez de mim seu lar, minha vida ganhou mais melodia. Os outros se foram, não aguentaram. Hoje são apenas lembranças quase esquecidas de uma história mal contada. Mas… Tudo bem! Eu vou te respeitar. Vamos fazer uma pausa para encontrarmos juntos um ponto de apoio.”
Então a ave aventureira pousou em meu mais alto galho. Antes de alçar voo, quis lançar-me a verdade que havia em seu peito. Baixou a guarda, despiu-se de pretensão e disse que precisava ver o mundo com os próprios olhos. Voou pela floresta pousando em árvores das mais variadas espécies. Nenhuma lhe foi tão acolhedora quanto eu, que permaneci plantada nos meus pesadelos. Então o pássaro viu que deveria voltar. Voltar àquela que um dia lhe deu tudo o que possuía. O castelo de seus alvoreceres gorjeantes.
Quando me avistou ao longe, eu estava lá mas já não era a mesma. Outras aves já haviam pousado e partido. Havia sido eu a morada de muitas. Bem como também esquecida por muitas. Todavia, aquele que se lembrava de mim estava rasgando os céus com as primeiras estrelas e lágrimas espelhavam seus olhos tão negros. O pássaro reconheceu àquele instante que seu coração era falho. Mas não tive coragem de julgá-lo. Estava em sua natureza voar por aí. Bem como estava na minha permanecer sendo abrigo de todas que quisessem de mim se apossar. Foi o que aconteceu. E eu precisava dizer-lhe:
— Então, você voltou trazendo consigo a sua satisfação pela aventura. Pois saiba que poderá refazer de mim sua morada. Contudo, não serei exclusiva como fui um dia. Não te darei todos os meus frutos, nem reservarei a ti os melhores galhos. Você agora é apenas um entre muitos. E eu sigo sendo quem sempre fui.
Sabia que havia tocado sua essência volátil. Ele não mais cantou às manhãs. Tornou-se acuado e temeroso de perder o pouco que lhe restava. Então recolhia-se apenas a ouvir aqueles que ainda tinham o ânimo de cantar. Entre suas idas e vindas aos pormenores do mundo, percebeu que havia aberto mão de seu mais precioso tesouro. Não havia o que ser feito. Como árvore, eu o amava. Mas também amava todos aqueles que em mim pousavam. A pobre ave tinha de viver agora com o peso em suas vísceras por ter perdido a maestria de ser única e soberana. Jamais iria negar-lhe abrigo, desde que soubesse dividir. E em meio a suas reminiscências pesarosas, o pássaro se calou.
Contudo, a vida não deixou de ser mais cantante nos galhos de quem um dia se reservou ao ocaso de uma única ave. Chegará o tempo em que o pássaro tomará a melodia em seu peito, mais uma vez.
Não que isso fosse ruim à primeira vista, porém trazia uma dose de descrença à ave que muito prezava por aventuranças.
Afinal, era ela portadora de asas capazes de voar por aí, de galho em galho, conhecendo o mundo flutuante de seus sonhos.
Mas estava presa naquela árvore. E era nela que se fazia pássaro.
A árvore era grande, frondosa, opulenta diante das demais, de verde estonteante e galhos intrincados ziguezagueando as entranhas de seu existir. Era linda, de fato. Reflexo de fortaleza e conforto. O pássaro tinha ela só para si, e mais ninguém…
Por mais que a árvore tenha sido de outras aves antes, agora era só dele.
Desde quando chegara, nenhuma outra ousou fazer ninho em sua copa.
Pois bem! Tratava-se de um pássaro afortunado por ter encontrado tamanho tesouro numa floresta tão grande.
Mas ninguém sabia o que se passava dentro da cabeça do pequeno animal.
E é aqui que eu começo:
Eu sou a árvore! E vou dar a minha versão.
— Passarinho! Você acha mesmo que eu não sei o que sente? Vê a todo instante essa grande floresta para explorar e se encontra acuado por ter de viver junto a mim para sempre. Vez ou outra você enxerga isso com pesar, mas te digo que não precisa ser assim. Tenha calma! Eu vou te proteger.
“O mundo realmente é muito grande e cheio de oportunidades para nos deleitarmos. Afinal, somos livres, não é? Errado. Você é livre! Eu não. Sou presa ao solo e onde nasci devo morrer. Você pôde escolher pousar em mim e fazer morada. Que escolha eu tive senão o acolher? Pois é assim que a vida funciona. Uns têm oportunidades e nada fazem; outros não tem e tudo querem. Mas se uma coisa eu posso te afirmar é que desde quando fez de mim seu lar, minha vida ganhou mais melodia. Os outros se foram, não aguentaram. Hoje são apenas lembranças quase esquecidas de uma história mal contada. Mas… Tudo bem! Eu vou te respeitar. Vamos fazer uma pausa para encontrarmos juntos um ponto de apoio.”
Então a ave aventureira pousou em meu mais alto galho. Antes de alçar voo, quis lançar-me a verdade que havia em seu peito. Baixou a guarda, despiu-se de pretensão e disse que precisava ver o mundo com os próprios olhos. Voou pela floresta pousando em árvores das mais variadas espécies. Nenhuma lhe foi tão acolhedora quanto eu, que permaneci plantada nos meus pesadelos. Então o pássaro viu que deveria voltar. Voltar àquela que um dia lhe deu tudo o que possuía. O castelo de seus alvoreceres gorjeantes.
Quando me avistou ao longe, eu estava lá mas já não era a mesma. Outras aves já haviam pousado e partido. Havia sido eu a morada de muitas. Bem como também esquecida por muitas. Todavia, aquele que se lembrava de mim estava rasgando os céus com as primeiras estrelas e lágrimas espelhavam seus olhos tão negros. O pássaro reconheceu àquele instante que seu coração era falho. Mas não tive coragem de julgá-lo. Estava em sua natureza voar por aí. Bem como estava na minha permanecer sendo abrigo de todas que quisessem de mim se apossar. Foi o que aconteceu. E eu precisava dizer-lhe:
— Então, você voltou trazendo consigo a sua satisfação pela aventura. Pois saiba que poderá refazer de mim sua morada. Contudo, não serei exclusiva como fui um dia. Não te darei todos os meus frutos, nem reservarei a ti os melhores galhos. Você agora é apenas um entre muitos. E eu sigo sendo quem sempre fui.
Sabia que havia tocado sua essência volátil. Ele não mais cantou às manhãs. Tornou-se acuado e temeroso de perder o pouco que lhe restava. Então recolhia-se apenas a ouvir aqueles que ainda tinham o ânimo de cantar. Entre suas idas e vindas aos pormenores do mundo, percebeu que havia aberto mão de seu mais precioso tesouro. Não havia o que ser feito. Como árvore, eu o amava. Mas também amava todos aqueles que em mim pousavam. A pobre ave tinha de viver agora com o peso em suas vísceras por ter perdido a maestria de ser única e soberana. Jamais iria negar-lhe abrigo, desde que soubesse dividir. E em meio a suas reminiscências pesarosas, o pássaro se calou.
Contudo, a vida não deixou de ser mais cantante nos galhos de quem um dia se reservou ao ocaso de uma única ave. Chegará o tempo em que o pássaro tomará a melodia em seu peito, mais uma vez.
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