O Dia Ainda Está Lindo

Vi que só escrevo a tristeza; então aí está um ponto de luz: o dia está lindo.

Eu, mais uma vez, sentado numa cadeira, venho aqui para me dizer que a fonte da minha alegria momentânea é a beleza de um dia que se esgota fora das paredes que me cercam.

A luz entra, o quarto se escancara, a vida passa, o relógio para, o desânimo se dissipa e eu colho frutinhas de pomares imaginários. Pensei tanto que esgotei minhas forças. Foquei-me numa paisagem que já não existia e só obtive frustração. Mas agora é momento de alegria, afinal, o dia está lindo. 

Vou ser sincero: acho que estou perdido. Mas é segredo. Pois nem eu mesmo sei ao certo. Posso me ver logo ali na frente, mas ao mesmo tempo posso não ver. Sumo nas contingências e na expansão das oportunidades. E quanto mais o universo se expande, mais eu sumo dentro de mim. Apesar dos pesares, o dia está lindo.

Vou me deitar um pouco e me trancar nos pensamentos. Tentar limpar na casa suja. Depois torno a abri-la à vida. Por isso não terminarei este texto por aqui. Ainda há muito a se dizer em um dia tão lindo.

Não consegui. Os pensamentos fugiram e viraram atos exacerbados. Tentei me expressar e caí feio. Cortei-me fundo, e das feridas saíram rios de sangue. Agora sofro pela saudade não sentida em um quarto escuro. Será possível? A tarde se esvai, e o que antes era beleza, mais uma vez, se transmuta em melancolia. Por ser que a tristeza não seja objeto removível de minhas palavras. Está intrincada, cravada, sem espaço para desencaches. 

O que posso fazer se quando escrevo é a cara da tristeza que estampo? Uma culpa nem leve, nem pesada. Apenas incômoda. Afinal, ela me tira o direito de sentir a saudade batendo à porta do coração. Talvez seja preciso eu parar um pouco. Dar espaço a mim que já nem sei quem sou. As paredes me abafaram tanto que eu adquiri a mesma forma que elas: quadradas, lisas e opacas.

De qualquer forma, acreditem em mim, o dia ainda está lindo.

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