Andar por aí...
Entender-me é pensar claramente em altas montanhas tocando o céu. A escalada é a chave da compreensão que faltava. Aos poucos, o silêncio aumenta, a claridade, a beleza, a paz, a serenidade, a suavidade e o amor ao percurso. A cada passo, uma nova descoberta. Um novo motivo para seguir.
Entender-me é caminhar nessa jornada difícil e exaustiva, porém bela. Beleza que não se faz em nuvens passageiras, mas se perpetua nos grandes cumes do conhecimento cristalino. Ele brota nas nascentes que estavam lá, escondidas, desde o início de tudo.
Entender-me é saber que nem tudo aquilo que escrevo é com palavras de sucessivos "tec, tec, tec, tec". Existem aquelas palavras que não foram ecoadas ou impressas em telas luminosas. Também não estão nessas montanhas das quais falei. Estão navegando por aí, nas pequenas embarcações do pensamento involuntário.
Quer saber? Esse texto não me agrada. Está cheio de regras, mesmices e conceitos fadados à exaustão. Ontem quis correr por aí, mas acabei deitando e pensando na vida. O sono não veio, mas as horas passaram feito cavalos fustigados. Levantei-me, andarei pelo quarto, abri a janela e tentei pegar um pouco da noite para mim. Tudo em vão! A noite não quis adentrar; preferiu a imensidão do céu que eu mal conseguia ver.
Se eu fosse ela, faria o mesmo. Não iria querer entrar num quarto qualquer para encontrar-me com alguém de mente tão pequena. Por isso que agora me redescubro nos livros que antes abandonei. Sim, sou capaz de me redescobrir nas histórias que não escrevi. E está tudo bem. Afinal, que história eu escrevi? Eu nada fui capaz de escrever.
Tudo é vaidade numa xícara de café frio. De tanto eu colocar açúcar, estragou. Agora terei de beber a realidade enjoada de tanto doce. E eu ainda ouso dizer que me entendi. Onde? Onde foi que eu obtive tal proeza? Parece que eu ainda não aprendi que aqui é onde eu tiro a roupagem do ego que me assola, para sentir-me livre por míseros instantes. Mas ele — o ego — insiste em prender-se a essência. Uma hora dessas eu não aguentarei. Tacarei fogo em tudo e não renascerei das cinzas. Isso é espetaculoso demais para mim que sou tão mesquinho. Brotarei por aí, como capim que nasce em um canto qualquer.
As palavras vão e vem. Bem como eu também me vou... Sem querer voltar. Chega de escalar montanhas. Chega de montar feras hediondas para sentir-me mais forte. A minha força não está na prova. Está no fechar das cortinas. Sim, queridos, o espetáculo acabou. E eu vou encontrar novos contornos para me encaixar. Ou não... Talvez eu não precise me encaixar mais. Na verdade, o que eu quero mesmo é andar por aí, sem rumo, sem compromisso, sem hora marcada; apenas andar por aí...
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