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Mostrando postagens de maio, 2022

A Rua, O Oceano e Os Pensamentos

Bom é saber a palavra que se resolve nos meandros do texto. Ela decidiu e pronto! Está feito. Então, vamos lá: eu já havia dito que vivi perdendo muito que já nem sei o que perdi. Milhões ao quadrado. E continuo... Nesse texto sem fundamento eu me faço e não me perco. Pois perdido eu sou. Perdido nos pensamentos que vem, e vem força, batendo nos muros e nos portões das ruas de calçadas estreitas. Aliás, muito estreitas. Tanto que para eu andar preciso usar a rua feita para carros. E sou atropelado. Como já fui muitas vezes, por esses pensamentos automobilísticos destruindo os passos de quem cisma em caminhar. Eu... Se paro, sinto frio. Se sigo, morro atropelado pelos pensamentos que surgem sem minha permissão. Nunca quis que fosse assim. Mas é... E isso não se trata de autoridade sobre "quem dirige o quê". Ninguém dirige nada. A diferença está em quem finge dirigir alguma coisa. E na fantasia cria padrões inalcançáveis de andados e transeuntes não desgovernados que se desgove...

Raro Dia Produtivo

Li Vidas Secas de uma só vez. Estou me sentindo um grande leitor. Como nunca me senti. É estranho atingir patamares almejados e depois perceber que, graças ao gosto à leitura, não foi tão difícil assim. Aliás, não foi nada difícil. Foi é pra lá de divertido, isto sim. Eu amei. E estou sentindo meu cérebro me agradecer pela leitura. “Obrigado, Filipe”, ele diz. Como se tivesse ganhado massa e, estando para pedir mais histórias, se regozija pelo feito: “Estou contente!”, completa. Loucura de leitor que descobriu o caminho, certamente. Sim, meus caros, eu descobri o caminho. Há muito fingi fazer uma leitura aqui e outra ali. Mas agora, de fato, eu leio com prazer porque quero saber o desfecho. E quero, sobretudo, viver a experiência. Algo está mais leve em mim. Até a semana acabar eu descubro o que é, e venho perpetuar a descoberta. Vamos fazer daqui um pequeno diário: hoje eu arrumei meu quarto, lavei roupas, assisti às aulas já gravadas e, no fim do dia, iniciei a leitura que já termine...

Uma Garrafa Normal

E eu, né... Que tenho florescido meu jardim de leitor. Algo nunca antes buscado com tanto afinco. Tenho um novo sonho agora, mas ele ficará em segredo até que se realize. Você, garimpeiro de palavras, talvez nunca o descubra, porque quando tudo acontecer e este pergaminho vir à tona, o contexto já estará banalizado; o sonho será rotina cansativa, mas feliz e alegre. Assim como os outros sonhos que um dia acreditei. Este texto navegará pelos mares mais profundos e por lá ficará. Até ser descoberto, oh, levará muito tempo. Isto se for... Se o sonho se concretizar, haverá grandes chances. Contudo, tenho que confessar: não é o meu primeiro sonho. E talvez não seja o último. Sobre o futuro não posso dizer; digo apenas pelo presente que tem se estendido por toda a minha vida. Depois de tantos sonhos — não, não vou dizer frustrados — e planos, um outro reluz no leito do riacho. Claro que irei pegá-lo! E, por conseguinte, criarei afeição a ele. Sobre este texto, o pergaminho virtual, será po...

O Barulho

Passos ruidosos não me afetam Pois aprendi a caminhar no silêncio. O barulho adentra o quarto, quebra as vidraças, Vira poeira e escuridão. Sua voz não faz diferença, Seu bater de portas não é levado a sério, Sua irritabilidade é motivo de risadas Quando resolve se virar. Vire-se! Vire-se, e siga o seu rumo. Aqui já não há caminho para você, Antagonista da paz. Suas chaves são gravetos ao chão; Não abrem as portas que você cisma em bater. Pode fazer, sim, um estrondo; Um estrondo de folhas secas. Não surte efeito: gota despejada no oceano. Se descobrisse a tempo, encontraria tesouros perdidos. Experimente! Ainda dá para plantar neste solo. O único afetado pelo escarcéu que cria, é simplesmente você. Ninguém se importa. Ninguém vive em função da sua desarmonia. Vamos, barulho! Metamorfoseie-se no brilhante silêncio de suas entranhas. A vida é bela demais para ser ofuscada com bagunça De caprichos desirmanados.

Palavras Esquecidas

Aquela íntima friagem que me abraça, ainda que em dias quentes, se presencia no percalço das horas. Consegui estudar, sim, e ler um pouco. Mas falta! Alguma coisa me falta e eu não o que é. Talvez fosse um amparo perdido e um abraço não dado. Ou uma palavra que ficou para trás quando fiz as malas e parti. Eu parti? Não, não. Ainda estou aqui. E ficarei até o fim. As malas foram feitas, de fato, mas seguem intactas guardando apenas o sobressalente. Estão lá: no sótão. Se alguma palavra ficou para trás, é porque está comigo. Na verdade: não há malas, não há sótão, não há palavras. Existe apenas o eu no quarto escuro. Tudo é cinzas que se misturaram com a chuva. Tudo é além do essencial. É copo transbordado e estrelas cadentes em noites nubladas. Sofro na pele a vergonha de ser um poço sem fundo. Bonito são os poços que se conhecem. Os misteriosos causam impacto negativo porque chocam quem enfrenta o desconhecido. Vergonha de cair e não chegar ao fundo. Vergonha de um destaque fajuto:...

O Mar e as Abelhas Preguiçosas

O personagem esquecido volta dizendo: — Ele não quis conversar comigo! Encontro-me em águas rasas nadando com os peixinhos. Já ele, navegando de canoa sobre o mais profundo dos oceanos. Tem medo da tempestade que não aconteceu, mas o assombra às entranhas. Ele fala: “Andar onde a água bate no joelho é fácil. Não precisa de grandes esforços. Quero ver remar esta pequena canoa em alto-mar. Sozinho, sem alguém para lhe ajudar. Ao menos tem aos peixes, que podem alegrar o seu dia.” Eu me recolho do discurso. Entendo que, como as palavras são carregadas pelo vento, indo ao encontro das orelhas receptoras, elas sofrem variações de clima. E alguma coisa que disser pode virar outra coisa. No fim, o silêncio vem deste que aqui relata uma história sem começo. Ele não entende. Sofre por antecipação e se irrita. A canoa balança, mas ele não cai. Recupera-se fácil. Navega, navega, navega, e não encontra uma praia para firmar os pés. Não posso dizer-lhe que as pedrinhas das águas rasas machuca...

O Abismo e o Jardim

Sabe este caminho? Este, que estou percorrendo neste exato instante. Ele estava completamente bloqueado pela avalanche que caíra tempos atrás. Não consigo precisar o quando. Durante anos a fio foi necessária uma força intrincada no desejo de prosseguir para liberar a via na qual ando agora. Minha vida ganhou verbos secretos. Desejos íntimos nas profundezas do abismo que já não se mostra tão ruim assim. Na verdade, nada ruim. O abismo é uma parte de mim. E dentro dele tenho descoberto, pouco a pouco, um lindo jardim. Mistério para todos. Mas que tenho acesso. Eu já caí, já voltei, e tornei-me a cair. Até que uma escada foi construída, dando-me a oportunidade de descer quando bem quisesse. Percebi que se tratava de um gigantesco cânion exuberante de densa floresta, aves silvestres e animais magníficos. Um riacho o cortava de fora a fora percorrendo sua extensão, e coloridos peixes saltavam por sobre as pedras. Agora o abismo é meu Éden. Onde encontro-me para encontrar-me. E não me procur...

Silêncio Cerrado

A noite cerrou o silêncio, partindo-o em dois. De um lado, o silêncio de se calar: aquele que é conduzido livremente por ruas vazias, fins de domingos, madrugadas estendidas de insônia. Do outro: o silêncio de ser calado. Em cujas vozes entoa uma nota quase imperceptível, se não fossem pelos loucos ouvidos fantasiando a orquestra. Por muito busquei os sonhos silenciados e agora enveredo-me para novas inquietações do coração. Acho que amadureci. E com isso vieram as borboletas fosforescentes embelezarem minha noite. São vozes de alento, cantadas pelos ecos dos desejos escondidos. Como fui tão tolo de não ter percebido isso antes? O medo, aos poucos, vai se esvaindo pelas grades da vaidade. Estas estão enferrujadas, imprestáveis. Lembro-me da janela da sala fechada, com livros empilhados. Aquilo era o mistério da minha infância. Antes mesmo de saber ler, abria os exemplares tentando decifrar o anagrama que se seguia no percurso dos meus olhos. Livros na janela da sala. Os que estav...