Silêncio Cerrado

A noite cerrou o silêncio, partindo-o em dois.

De um lado, o silêncio de se calar: aquele que é conduzido livremente por ruas vazias, fins de domingos, madrugadas estendidas de insônia. Do outro: o silêncio de ser calado. Em cujas vozes entoa uma nota quase imperceptível, se não fossem pelos loucos ouvidos fantasiando a orquestra. Por muito busquei os sonhos silenciados e agora enveredo-me para novas inquietações do coração.

Acho que amadureci. E com isso vieram as borboletas fosforescentes embelezarem minha noite. São vozes de alento, cantadas pelos ecos dos desejos escondidos. Como fui tão tolo de não ter percebido isso antes?

O medo, aos poucos, vai se esvaindo pelas grades da vaidade. Estas estão enferrujadas, imprestáveis.

Lembro-me da janela da sala fechada, com livros empilhados. Aquilo era o mistério da minha infância. Antes mesmo de saber ler, abria os exemplares tentando decifrar o anagrama que se seguia no percurso dos meus olhos. Livros na janela da sala. Os que estavam nas partes mais baixas da pilha eram os que mais me chamavam a atenção. E agora: viraram-se estrelas dessa noite.

Um cachorro late bem perto da minha janela que, por sua vez, está sem livros. Reclama das histórias escondidas, que ninguém o contou. O cachorro! Solitário nessa noite que inicia o mês de maio. Parece que foi ontem que escrevi um poema me despedindo dele. E cá está ele de novo! E uma nova versão de mim renasce: novos sonhos aparecem. O amor vibra e a vida continua.

A poesia já floriu. Não há do que reclamar nesse âmbito vertiginoso, íntimo e bem, bem, escondido. Escondido até mesmo de mim. Mas hoje, de novo, algo me foi revelado em segredo: um mapa. Não posso contar de quê. Ainda estou estudando os passos e traçando o planejamento de caça ao tesouro. Mas adianto: nada de tesouro físico dentro de velhos baús. Trata-se de algo muito mais valioso, percorrendo os limites da paixão. Esse agora sou eu: apaixonado pela vida. E também apaixonado de amor.

Os textos de tristezas estão no outro capítulo; aqui ninguém os encontra. Graças a Deu! Não via a hora de dar forma e cor aos desígnios da minha missão. Será mesmo que consegui? Acredito que sim. Tenho esperança. A fé já tem remado o seu barquinho pelo oceano onde naufraguei. Ela vai me resgatar do limbo.

Só de acreditar, já nasceu uma luz. Não no fim do túnel, que nem existe. Estou falando de montanhas e cordilheiras. A luz nasceu da cratera de um vulcão prestes a entrar em erupção. Não haverá catástrofes. Eu ainda me encontro na ilha deserta. Esta que já dá os primeiros sinais de se transformar em um continente fantástico.

Estou feliz por esse texto ter me trazido até aqui. A propósito, hoje terminei de ler um livro que me deixou contente de tê-lo lido. Então: influenciou nas minhas palavras de alegria. Estava precisando, mesmo. Balancear os sentimentos. E aqui, o outro lado ganha peso. O lado dos sentimentos voláteis. Como as aves do céu.

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