Palavras Esquecidas

Aquela íntima friagem que me abraça, ainda que em dias quentes, se presencia no percalço das horas. Consegui estudar, sim, e ler um pouco. Mas falta! Alguma coisa me falta e eu não o que é. Talvez fosse um amparo perdido e um abraço não dado. Ou uma palavra que ficou para trás quando fiz as malas e parti.

Eu parti? Não, não. Ainda estou aqui. E ficarei até o fim. As malas foram feitas, de fato, mas seguem intactas guardando apenas o sobressalente. Estão lá: no sótão. Se alguma palavra ficou para trás, é porque está comigo. Na verdade: não há malas, não há sótão, não há palavras. Existe apenas o eu no quarto escuro. Tudo é cinzas que se misturaram com a chuva. Tudo é além do essencial. É copo transbordado e estrelas cadentes em noites nubladas.

Sofro na pele a vergonha de ser um poço sem fundo. Bonito são os poços que se conhecem. Os misteriosos causam impacto negativo porque chocam quem enfrenta o desconhecido. Vergonha de cair e não chegar ao fundo. Vergonha de um destaque fajuto: queda frustrante que esconde um resquício de prazer. A adrenalina de escrever e não se importar mais com os papéis, nem com as tintas. Nunca os usei. Escrevo em um computador, com sucessivas teclas pressionadas. Eu já escrevi isso antes, mas o antes agora pouco importa.

O importante é: sinto frio. Muito frio. Sinto que perdi algo desconhecido, mas que era intimamente ligado a mim. Uma palavra-joia. Rolada pelo despenhadeiro. Nunca será descoberta, assim como o sentido desse texto que se encontra velado. Lamento informar-lhes: apenas eu o saberei. Deixem os quartos escuros e vão respirar. Alguém já morreu abafado nesses ambientes familiares.

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