O Mar e as Abelhas Preguiçosas
O personagem esquecido volta dizendo:
— Ele não quis conversar comigo! Encontro-me em águas rasas nadando
com os peixinhos. Já ele, navegando de canoa sobre o mais profundo dos oceanos.
Tem medo da tempestade que não aconteceu, mas o assombra às entranhas. Ele
fala: “Andar onde a água bate no joelho é fácil. Não precisa de grandes
esforços. Quero ver remar esta pequena canoa em alto-mar. Sozinho, sem alguém
para lhe ajudar. Ao menos tem aos peixes, que podem alegrar o seu dia.” Eu me
recolho do discurso.
Entendo que, como as palavras são carregadas pelo vento,
indo ao encontro das orelhas receptoras, elas sofrem variações de clima. E alguma
coisa que disser pode virar outra coisa. No fim, o silêncio vem deste que aqui
relata uma história sem começo. Ele não entende. Sofre por antecipação e se
irrita. A canoa balança, mas ele não cai. Recupera-se fácil. Navega, navega,
navega, e não encontra uma praia para firmar os pés.
Não posso dizer-lhe que as pedrinhas das águas rasas
machucam meus pés. É tudo tão lindo. Ele jamais entenderia. Deixarei o vento
carregar apenas um alento de olhos brilhantes tentando dizer-lhe sem palavras: “Eu
sei que se sente perdido, no infinito, sem alguém para compartilhar o cansaço.
Mas lembre-se: no fim, iremos nos encontrar. Guarde estas palavras consigo!
Muito em breve, estaremos juntos. O oceano não é nada.” E o vento se
responsabilizará.
Enquanto isso, encontro entre uma pedra em outra um novo
peixinho para seguir. Uma nova cor para alegrar a minha caminhada. Um dia será eu
quem navegará pelos mares profundos. No momento, sigo molhando apenas até os
joelhos.
O personagem esquecido se desprende das palavras e volta ao
seu ofício interpretado como uma vasilha vazia de mel. As abelhas andam muito
preguiçosas ultimamente.
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