Mares que Deixei

Escrevi uma carta sem eira nem beira,
Pelo simples prazer de ver o contorno
Das letras cursivas formando palavras
Que diziam algo. 
Algo que eu queria dizer.
E não disse.
A carta se perdeu horas antes de eu me sentar de novo,
Para enfim recomeçar:
Agora entendo que estou escrevendo
Buscando a preciosidade ímpar
Em meio aos barrancos.
Eu, que tanto escrevi, não sei mais escrever
Sem pensar no que vai ser
Quando  minha letra despendida em botões,
De uma florada mal cultivada,
Finalmente florir.
Aqui, bem aqui, você pode dar forma ao ego.
O meu tem barbatanas e nada pela imensidão
Das ondas e ondas quebradiças
Dos mares que deixei para trás.
Confesso que não foram tantos.
Algumas lagoas; outros, córregos;
Mares mesmo, poucos.
Nessa dança de marés, 
O ego quebrou as correntes,
Fantasiou-se com escamas coloridas
E plantou-se no espelho d'água 
Misturando-se com as carpas
Que eram inocentes.
Agora já é noite. 
Toda água é mistério.
E todo mistério, um novo caminho.
Eu, que abandonei a caneta e o papel,
Penso nas ondas e nos peixes;
Foram-se os jardins e as flores,
Embora estejamos no fim de setembro.
Por que as coisas ficam fora do lugar?
Talvez não haja lugar para se estar fora,
Porque tudo já está dentro.
É a consciência vivaz dando contorno
Aos meandros das palavras vazias
Que se preenchem com a vontade de viver
Mais uma vez
Uma história que valha a pena.

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