O Estressado
Certa vez eu parei em um ponto de ônibus, encontrei-me com um estressado, e ele me disse:
— Hoje eu surtei. Explodi. Deixei o leite derramar sobre o fogão e não limpei. Nem vou. Nunca fui. E é assim que eu seguirei. Ninguém percebe se eu faço ou não faço, se limpo ou se sujo. Todos, eu digo, não estão nem aí. Aí, ali e aqui. Não estão em nenhum lugar. Tampouco minha paz. Não consigo encontrá-la. Você sabe? Sabe como faço para desfazer minhas preocupações? Sabe como faço para calar as vozes que ouço dia após dia? Sabe como desaperto meu peito ou como desato os nós que atei sem saber? Houve semanas de muito aprendizado, e meses de estagnação. É, meu amigo. Eu estagnei. Estou parado sem querer. E, sem querer, também parei de aprender. A casa ficou suja e os livros empoeirados. A caneta se perdeu atrás de algum móvel que eu tive preguiça de arrastar. Ah, não! Não é preguiça. É revolta. Revolta por eu não ser visto. Ou por eu acreditar que tudo é em vão. Na verdade, mesmo, é que eu estou estressado com a vida. A vida que sonhei não existe mais. Se é que um dia existiu... Mas eu acho que sim. Ela já foi real, um dia, bem longe daqui, em outros papéis escritos e já perdidos. Percebe? Tudo se perde um dia. Como eu me perdi, acabei por perder também tudo a minha volta. A gente vai se acostumando, não é?
Nesse instante, o estressado perdeu o ônibus. Deu nos ombros e saiu caminhando sem rumo com as mãos no bolso, chutando as folhas que encontrava pelo caminho. O ocaso se estendia e muitos carros passavam na estrada. Ninguém o avistou quando desapareceu ao longe, entre uma depressão e um relevo, onde a estrada se escondia nela mesma.
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