Ciranda da Vida (OK)
É, vida! Você cisma em brincar comigo de ciranda. Venda meus olhos e começa a girar. Fico perdido no meio da roda tentando agarrar uma das suas mil faces. Ouço risos e passos; mais gente chegando e se juntando. A música continua sem que eu nada possa ver. Mas sinto a brincadeira no coração quando ele harmoniza as batidas ao jogo. Que jogo! Já caí algumas vezes no centro da roda; noutras, consegui agarrar alguém e juntei-me à corrente de braços dando os meus. Girei, girei e girei. Cantei e corri no torvelinho de sonhos e luzes de uma manhã ensolarada.
É, vida! Quanta magia guarda consigo no galho de uma árvore? Quando pendura sob ele um balanço e me faz sentir o vento. Nem sempre fui capaz de perceber estas coisas. Lembro-me dos vitrais de uma catedral lançando-me as cores de uma história incompleta. Também me lembro de você, vida! Quando guardava caixas no guarda-roupas para enchê-las de memórias. Ou quando fazia do passado um abraço não dado, plantado como muda na horta de um velho agricultor.
Sei que algumas histórias se perderam, e que algumas lembranças se apagaram. Sei também que as caixas mofaram na escuridão e que há muito não escreve os sonhos pela manhã. Mas... Sabe, vida?! Você tem aberto as janelas pela tarde, tem regado suas plantas, colecionado cadernos e caminhado todos os dias. Podemos seguir assim. Eu pego em sua mão para rodarmos juntos e juntos seguiremos brincando e brincando pelas tardes sem fim.
Você se lembra das pedrinhas coloridas? Elas não estão mais em meu bolso. Contornaram meus caminhos. A cada sorriso eu me desfazia de uma, com bastante pesar. Agora, que nada tenho, posso sorrir de graça, sem nada a perder. Tudo ficou no caminho.
Vida, vamos andando! Ainda temos muito chão pela frente. Ainda temos algumas cachoeiras, praias e florestas. Ainda temos montanhas e desertos. E muitos jardins.
Ah, como eu amo os jardins!
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