A Senhora dos Olhos d'Água
Esta é uma história real. Bem diferente dos sussurros da minha mente. Aconteceu, de fato, e será transpassada ao eterno pelas palavras aqui empregadas. Por isso, com caráter descritivo, trarei de volta uma experiência marcante, acolhedora e muito, extremamente singular.
Íamos eu e Otávio à loja de vasos de argila para comprarmos uma bacia e plantarmos as suculentas que havíamos comprado no dia anterior. Foram quinze mudas, ao todo, para fazermos o arranjo perfeito. Bem, o fato é que, ao sairmos da loja, encontramos uma senhora de idade avançada, lá para os seus setenta e tantos anos, debaixo do sol a pino, a chamar-nos.
— Por favor — disse-nos fazendo um sinal com as mãos —, vocês poderiam chamar um Uber para mim? Eu moro bem perto daqui e não trouxe celular.
Caríssimos, nessas horas a gente pensa de tudo. Porque tudo é surpresa. A primeira impressão foi a que se tratava de um golpe, como tantos por aí. Olhei para Otávio e ele retornou o olhar. Enfim, fomos até ela saber do que se tratava.
Realmente ela precisava de um carro para levá-la a sua residência. Mas devido à força do hábito de uma constante correria, quase não levamos a sério seu pedido. Havia tantos outros pedidos pelas ruas e avenidas da capital. O que faria desse diferente? Nos primeiros segundos, ficamos meio acuados pela situação e até mesmo constrangidos. Tais sensações duraram até eu levar meu olhar para baixo.
Havia uma ferida grande na perna da senhora. O membro estava enfaixado e bem inchado. Com certeza impossibilitando sua caminhada. De fato, havíamos de ajudar. Porém não tínhamos tanto dinheiro para chamarmos um Uber. Aconteceu que logo à frente avistamos um taxi e atravessamos a rua para chamá-lo enquanto a senhora esperava encostada no mesmo local.
Infelizmente o taxi não parou.
Daí, mais uma vez, olhei para Otávio e perguntei-lhe:
— E agora?
— E agora que nós temos de ajudá-la — ele respondeu-me.
Mas não sabíamos como. Caso voltássemos para casa sem fazer alguma coisa, o pensamento de incapacidade nos consumiria. Talvez até mesmo o remorso. A senhora, do outro lado da rua, lançou-nos um “muito obrigada” em alto e bom tom, imaginando que dali nós íamos embora. Mas nós não fomos.
— Vamos lá! — falei para Otávio. E ele concordou. Íamos chamar o Uber mesmo sem termos dinheiro para tal feito.
Dissemos a ela que tentaríamos conectar o celular para fazer o pedido. E ela transpareceu contentamento por ser ajudada. Foi então que eu percebi algo precioso. Em meio àquela multidão de transeuntes, ao sol escaldante, ao trânsito da avenida, ao caos da cidade grande e à humildade serena da senhora marcada pela força do tempo, seus olhos se destacaram. Eram de um azul-esverdeado muito cativante, como se mostrassem uma alma antiga que vagava por esse mundo simplesmente para condicionar almas mais jovens ao caminho do bem.
Aqueles olhos mostravam mais do que a realidade era capaz de fazer. Eram olhos d´água. Olhos capazes de hipnotizar e atravessar a armadura da banalidade. Foram plantados envoltos à pele bronzeada da senhora desconhecida que por poucos instantes nos acolheu. Sim, não fomos nós que a acolhemos. Tampouco fomos nós que fizemos algo por ela. O dia era ensurdecedor e caótico àquela hora. Mas encontramos alento quando tomamos a iniciativa de concretizarmos uma boa ação.
Quando Otávio estava quase finalizando o pedido, um carro parou bem perto de nós. Do lado de dentro, uma voz ressoou:
— Senhora, eu vou te levar até a sua casa — disse-lhe a moça que estava dirigindo.
Bem, não foi necessário o pedido do Uber. Apenas que eu a ajudasse a entrar no veículo estacionado à nossa frente. Dei o braço a ela e, enquanto dávamos a volta no caro, pude dizê-la:
— A senhora tem olhos muito bonitos!
— Ah, meu filho! Quer comprar? — Ela sorriu como quem gostasse da brincadeira.
Eu também achei graça ao pensar que seus olhos pudessem ser comprados. Mas não, não poderiam jamais. Tal como o bem que se faz também não pode ser. Cada um carrega consigo suas experiências e, ao seu modo, consegue expressar através do olhar a profundidade que são capazes de navegar.
Daí a senhora continuou:
— Eu tenho seis filhos. E nenhum deles puxou os meus olhos. Acredita?
— Acredito! — respondi.
Realmente, eu acreditava. Para ter olhos daquela maneira, que vão muito além da cor, era preciso mais que genética. Era preciso um misticismo ímpar para perceber o real significado de preciosidade. Além, é claro, de ter caminhado muito e muito para chegar ao ponto de conduzir seres à luz apenas com o olhar.
No fim, ajudei-a a se posicionar no carro. Levantei suas pernas e as coloquei para dentro. E ela, sem perder o humor, disse-me em uma gargalhada:
— Minhas pernas também são lindas, não são?
— São sim! — Retribuí-lhe o riso.
— Você é muito educado. Qual é seu nome, meu filho?
— É Filipe. E aquele lá se chama Otávio.
— Vou colocar o nome de vocês nas minhas orações, viu?! — Ela concluiu.
Eu consenti com a cabeça estampando um leve sorriso no rosto e o carro partiu. Otávio não precisou chamar o Uber e nós não gastamos nenhum real com o ocorrido.
Depois me veio à mente que eu poderia ter perguntado a ela o seu nome. Mas diante daquele acontecimento, creio que o nome ficou para trás, em segundo plano, indiferente às delicadezas do ato. Ou talvez tenha sido mesmo um descuido meu. Enfim, coisas da vida.
O fato dela ter falado que nos colocaria nas orações me trouxe muita alegria. Um sinal de que nós não vacilamos em meio à surpresa de termos sido interpelados pelo extraordinário. Voltamos para casa, plantamos as mudas e contemplamos a beleza de existir.
Muito mais do que as suculentas plantadas na bacia de argila, havíamos plantado flores em nossos corações ao não abandonarmos a voz que nos chamou. Provavelmente nunca mais veremos a senhora de olhos d’água, mas saberemos que tivemos um parágrafo em comum na perpendicularidade de nossas histórias.
A vida é cheia de surpresas que acontecem quando menos esperamos. Do contrário, não são surpresas. Hoje, a bacia de suculentas está linda. Mas muito mais linda está a consciência de quem sabe que fez o que pôde para ajudar. Poderíamos ter feito mais? Talvez. Poderíamos não ter nos assustado no início, ou não olharmos duvidosos para o chamado, com certo tipo de receio. Contudo, meus olhos mostram a verdade. Por mais rarefeita que ela possa ser. Ao passo em que caminho para a profundidade do mistério, tudo será refletido no espelho da alma.
Aquela senhora muito nos ensinou. No fim, percebi que os ajudados foram nós. Ela que nos conduziu ao caminho de casa. Ela que nos mostrou as pegadas, apesar da ferida em sua perna, apontando-nos a direção da virtude do bem-existir. A preocupação com a perda de recursos foi toda em vão. Não era importante. Não fazia efeito ao contexto da vivência, apenas ao delírio da vaidade.
Por conseguinte, pudemos levar a experiência como quem leva uma joia. Pudemos aprender em meio ao caos e escrever mais um capítulo das nossas vidas.
Íamos eu e Otávio à loja de vasos de argila para comprarmos uma bacia e plantarmos as suculentas que havíamos comprado no dia anterior. Foram quinze mudas, ao todo, para fazermos o arranjo perfeito. Bem, o fato é que, ao sairmos da loja, encontramos uma senhora de idade avançada, lá para os seus setenta e tantos anos, debaixo do sol a pino, a chamar-nos.
— Por favor — disse-nos fazendo um sinal com as mãos —, vocês poderiam chamar um Uber para mim? Eu moro bem perto daqui e não trouxe celular.
Caríssimos, nessas horas a gente pensa de tudo. Porque tudo é surpresa. A primeira impressão foi a que se tratava de um golpe, como tantos por aí. Olhei para Otávio e ele retornou o olhar. Enfim, fomos até ela saber do que se tratava.
Realmente ela precisava de um carro para levá-la a sua residência. Mas devido à força do hábito de uma constante correria, quase não levamos a sério seu pedido. Havia tantos outros pedidos pelas ruas e avenidas da capital. O que faria desse diferente? Nos primeiros segundos, ficamos meio acuados pela situação e até mesmo constrangidos. Tais sensações duraram até eu levar meu olhar para baixo.
Havia uma ferida grande na perna da senhora. O membro estava enfaixado e bem inchado. Com certeza impossibilitando sua caminhada. De fato, havíamos de ajudar. Porém não tínhamos tanto dinheiro para chamarmos um Uber. Aconteceu que logo à frente avistamos um taxi e atravessamos a rua para chamá-lo enquanto a senhora esperava encostada no mesmo local.
Infelizmente o taxi não parou.
Daí, mais uma vez, olhei para Otávio e perguntei-lhe:
— E agora?
— E agora que nós temos de ajudá-la — ele respondeu-me.
Mas não sabíamos como. Caso voltássemos para casa sem fazer alguma coisa, o pensamento de incapacidade nos consumiria. Talvez até mesmo o remorso. A senhora, do outro lado da rua, lançou-nos um “muito obrigada” em alto e bom tom, imaginando que dali nós íamos embora. Mas nós não fomos.
— Vamos lá! — falei para Otávio. E ele concordou. Íamos chamar o Uber mesmo sem termos dinheiro para tal feito.
Dissemos a ela que tentaríamos conectar o celular para fazer o pedido. E ela transpareceu contentamento por ser ajudada. Foi então que eu percebi algo precioso. Em meio àquela multidão de transeuntes, ao sol escaldante, ao trânsito da avenida, ao caos da cidade grande e à humildade serena da senhora marcada pela força do tempo, seus olhos se destacaram. Eram de um azul-esverdeado muito cativante, como se mostrassem uma alma antiga que vagava por esse mundo simplesmente para condicionar almas mais jovens ao caminho do bem.
Aqueles olhos mostravam mais do que a realidade era capaz de fazer. Eram olhos d´água. Olhos capazes de hipnotizar e atravessar a armadura da banalidade. Foram plantados envoltos à pele bronzeada da senhora desconhecida que por poucos instantes nos acolheu. Sim, não fomos nós que a acolhemos. Tampouco fomos nós que fizemos algo por ela. O dia era ensurdecedor e caótico àquela hora. Mas encontramos alento quando tomamos a iniciativa de concretizarmos uma boa ação.
Quando Otávio estava quase finalizando o pedido, um carro parou bem perto de nós. Do lado de dentro, uma voz ressoou:
— Senhora, eu vou te levar até a sua casa — disse-lhe a moça que estava dirigindo.
Bem, não foi necessário o pedido do Uber. Apenas que eu a ajudasse a entrar no veículo estacionado à nossa frente. Dei o braço a ela e, enquanto dávamos a volta no caro, pude dizê-la:
— A senhora tem olhos muito bonitos!
— Ah, meu filho! Quer comprar? — Ela sorriu como quem gostasse da brincadeira.
Eu também achei graça ao pensar que seus olhos pudessem ser comprados. Mas não, não poderiam jamais. Tal como o bem que se faz também não pode ser. Cada um carrega consigo suas experiências e, ao seu modo, consegue expressar através do olhar a profundidade que são capazes de navegar.
Daí a senhora continuou:
— Eu tenho seis filhos. E nenhum deles puxou os meus olhos. Acredita?
— Acredito! — respondi.
Realmente, eu acreditava. Para ter olhos daquela maneira, que vão muito além da cor, era preciso mais que genética. Era preciso um misticismo ímpar para perceber o real significado de preciosidade. Além, é claro, de ter caminhado muito e muito para chegar ao ponto de conduzir seres à luz apenas com o olhar.
No fim, ajudei-a a se posicionar no carro. Levantei suas pernas e as coloquei para dentro. E ela, sem perder o humor, disse-me em uma gargalhada:
— Minhas pernas também são lindas, não são?
— São sim! — Retribuí-lhe o riso.
— Você é muito educado. Qual é seu nome, meu filho?
— É Filipe. E aquele lá se chama Otávio.
— Vou colocar o nome de vocês nas minhas orações, viu?! — Ela concluiu.
Eu consenti com a cabeça estampando um leve sorriso no rosto e o carro partiu. Otávio não precisou chamar o Uber e nós não gastamos nenhum real com o ocorrido.
Depois me veio à mente que eu poderia ter perguntado a ela o seu nome. Mas diante daquele acontecimento, creio que o nome ficou para trás, em segundo plano, indiferente às delicadezas do ato. Ou talvez tenha sido mesmo um descuido meu. Enfim, coisas da vida.
O fato dela ter falado que nos colocaria nas orações me trouxe muita alegria. Um sinal de que nós não vacilamos em meio à surpresa de termos sido interpelados pelo extraordinário. Voltamos para casa, plantamos as mudas e contemplamos a beleza de existir.
Muito mais do que as suculentas plantadas na bacia de argila, havíamos plantado flores em nossos corações ao não abandonarmos a voz que nos chamou. Provavelmente nunca mais veremos a senhora de olhos d’água, mas saberemos que tivemos um parágrafo em comum na perpendicularidade de nossas histórias.
A vida é cheia de surpresas que acontecem quando menos esperamos. Do contrário, não são surpresas. Hoje, a bacia de suculentas está linda. Mas muito mais linda está a consciência de quem sabe que fez o que pôde para ajudar. Poderíamos ter feito mais? Talvez. Poderíamos não ter nos assustado no início, ou não olharmos duvidosos para o chamado, com certo tipo de receio. Contudo, meus olhos mostram a verdade. Por mais rarefeita que ela possa ser. Ao passo em que caminho para a profundidade do mistério, tudo será refletido no espelho da alma.
Aquela senhora muito nos ensinou. No fim, percebi que os ajudados foram nós. Ela que nos conduziu ao caminho de casa. Ela que nos mostrou as pegadas, apesar da ferida em sua perna, apontando-nos a direção da virtude do bem-existir. A preocupação com a perda de recursos foi toda em vão. Não era importante. Não fazia efeito ao contexto da vivência, apenas ao delírio da vaidade.
Por conseguinte, pudemos levar a experiência como quem leva uma joia. Pudemos aprender em meio ao caos e escrever mais um capítulo das nossas vidas.
Ao passo em que o sol faz as plantas crescerem, olhos de almas antigas fazem as pessoas encontrarem o caminho de volta pra casa.
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