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Mostrando postagens de fevereiro, 2023

Retalho de Sonhos

Sábado. Palavras avulsas. Música instrumental não significado nada. Tarde quente, sem nada para oferecer àquele que diz "estou aqui". Um caderno verde, uma casa limpa, um ventilador ligado, uma camisa dobrada na cama; meu Deus! Quantas coisas para se escrever. Mas e o sentimento? E os dias de angústia? E as feridas cicatrizadas? E os fantasmas depostos? E o medo? Medo! De viver, supostamente, ou de morrer sem ter vivido? Quando foi que as coisas ao redor pararam de falar em voz alta? Tudo para ouvir o que está dentro. Tudo para sentir uma respiração tranquila. Um texto não quer dizer muita coisa comparado ao tanto de coisa que não disse. É apenas mais um sábado. Queria mesmo entender aquilo não foi entendido. Será que cresci demais e não percebi? Será que já sou o adulto que imaginava quando criança? Se sim, por que continuar negando aquilo que os dias me trouxeram? Por que não aceitar? É bem difícil dizer o indizível. Isso porque a tarefa de traduzir sentimentos em palavras ...

Esperança Abafada

Realmente, parece que as coisas deram certo. Lembro-me do desespero que senti quando me foi pedido apenas para acreditar. Eu, que sempre me julguei compreensivo, não compreendi a esperança. Pensei que não a tivesse, mas tendo-a, acabei dilacerando a sua essência na descida da rua onde me encontrava. Meu Deus! Tudo o que me foi dito era: "Acredite!". E eu, corrompido pela cólera de não ter feito o melhor que podia, não quis acreditar. Os dias se passaram comigo reclamando o pedido não atendido. E quando a esperança renascia das cinzas a cada manhã, eu a abafava com uma manta pesada de desilusão. Isso porque estava iludido e descrente da promessa feita. Descrente também do que me disseram sobre: "o que é para ser seu, vem na sua mão". Mais um clichê no meio do balaio de frases avulsas, era o que eu pensava. Daí, veio um novo ano. Novas predisposições para acordar a cada manhã, querendo da vida uma surpresa a todo instante. Quando penso que não, surpreendo-me com o rec...

Livros, Vitrais e Estrelas (OK)

E então, dias vazados, chegarão às poças da noite resplandecida? Encontrarão caminhos pelos torvelinhos de ressentimento guardado ou correrão livres pela correnteza do coração leve? É melhor escolher logo. E com sabedoria levar a vida rumo ao sol do horizonte mais distante que aguentar. Em torvelinhos não há horizontes. Sua casa tem janelas abertas para a verdade adentrar. Pense nisso antes de acumular livros na estante. Tenho acordado cedo, antes do dia invadir o quarto, para pensar nos títulos secretos de uma biblioteca bem escondida. Tão escondida em mim que eu mesmo não a encontrei. Sei de sua existência porque carrego o peso das histórias comigo. Caminho por corredores escuros, cheio de portas trancadas e passagens inesperadas, acreditando buscar o que nunca foi meu, mas que, devido à falta de uma verdadeira história, passa a sensação de pertencimento. Se eu não sentisse falta de nada, jamais buscaria tais livros. Tampouco perderia meu sono pensando em títulos secretos que talvez ...

Poeira nas Mãos

Eu não sei mais o que fazer. Arranquei todas as flores do jardim. Cavei poços sem ferramentas e desnivelei o solo outrora nivelado. Também não sei o que dizer. O tempo de brincar com as palavras se foi. O que eu tenho agora em minhas mãos é poeira. E já nem sinto sede de água. Olho ao redor; tudo murado. O espaço determinando a existência. O que eu fiz com o meu quintal foi uma catástrofe. Ao invés de esperar o tempo certo de colher, fui lá capinar a grama bem à meia-noite, estando eu cego e atormentado por madrugadas sem dormir. Por isso preciso esperar o tempo da chuva, para desfazer os outeiros que fiz cavando buracos de ansiedade. Sim, é dela que falo. Num momento em que as sílabas pareciam não sair, em que as palavras viraram as costas para o seu escritor, bagunçando o texto na mente em vigília. Sei que o maior segredo que tenho comigo é justamente o fato de não ter segredos mas gostar de mistérios. A espera angustiante destruiu os contextos secundários, os coadjuvantes e os cenár...

Oito Noites de Tormenta

Acabei de escrever à mão sobre a face da ansiedade que tem me assombrado nas últimas noites, portanto não falarei dela aqui. Quero apenas fazer menção ao sono que se esvaiu pela madrugada, fazendo-me acordar no meio do silêncio para me preocupar com coisas que não acontecerão. São duas noites navegando por estes mares de calmaria lancinante que impossibilita o meu acesso aos sonhos. E compreendo que ainda serão mais seis dessas noites à deriva na embarcação que construí a grosso modo. Não entendo o porquê de ser assim, embora assim seja. Oito noites de tormenta, em meio ao mar sem ondas. A contradição das contradições. Ondas mesmo há em meu peito, batendo nas extremidades das praias do desejo. Olho para um lado, nada; olho para o outro, nada. Não há sol, não há chuva, não há vento. Existe apenas eu; ponto insignificante no infinito do céu e do mar. Extremamente atormentado por uma tempestade invisível, caindo torrencialmente nas entranhas da minha compreensão de não compreender. Do pri...

Jardins de Poesia

Quando comecei a escrever por aqui, pensava diferente. Recriei contextos e desfiz laços; calcei outras sandálias e marquei passos no asfalto, na rua esquecida, na noite incompleta e no céu de incontáveis lampejos; sobrevivi debaixo d'água, nas profundezas desconhecidas, e encontrei pérolas multicoloridas que optei por deixar no mesmo lugar onde as vi; rasguei pilhas de cadernos e perdi outros que não foram rasgados, ficando apenas na lembrança a caligrafia grosseira de ilusões juvenis; usei muitas canetas para assumir outras personalidades e refazer um futuro incerto, enquanto parava para sentir o frio de pequenas pedras em meu rosto; ah, e caminhei até minhas pernas não aguentarem mais; por muito tempo me recolhi, sentando-me ao chão de um canto qualquer, para pensar no rumo das coisas. Daí, surgiram preces e orações regadas que cresceram em um semblante tímido e descrente das coisas impossíveis. E eis que em uma noite de relâmpagos silenciosos que clareavam o céu, o impossível ac...

Diferentes Papéis

Tenho traído este espaço em outros espaços; tenho fantasiado a mente de poço dos desejos, jogando moedas ao alto para chegarem bem fundo; tenho feito tranças em redes de palavras, usando as mãos para escrever; tenho andado distraído, acreditando ter muito o que fazer, sem fazer nada; tenho ouvido outras músicas; tenho alimentado borboletas ilusórias do lado de dentro; tenho deixado para depois o que é para depois; tenho acreditado em milagres; tenho saído mais sob o sol de fevereiro; tenho enlouquecido às vezes por não enlouquecer mais; tenho tudo nas mãos conquanto estejam vazias; tenho polido a armadura da contradição e, finalmente, tenho feito das letras similares um sonho que não se sonha dormindo. Dizem por aí que quando é para ser, acontece sem demora. No meu caso, demorou um tanto. Mas, para ser sincero, sendo eu uma pessoa demorada no próprio tempo, sempre contraditada pela ansiedade, o que foi para ser, veio no tempo certo. E eu, pouco a pouco assustado pelos fios embranquecid...

Silencioso Domingo

Depois de ter reclamado das palavras que desapareceram, percebo o porquê. Hoje não sou eu quem propaga o silêncio interior, mas ele que se propaga de fora para dentro. Já vivi domingos mais conturbados, cheios de idas e vindas, pessoas falando ao fundo e muita confusão ao redor. É estranho pensar assim, no limiar de outra época onde o calendário já não alcança. Tudo agora contribui para a paz. Deitado, percebi que as lembranças se desfazem como uma pedra de sal. Depois que levantei elas se foram. O dia está quente, mais que o normal. A casa dorme, mas as cores permanecem, as plantas vivem, os pássaros cantam lá fora e tudo no cenário se propaga com sentimento. Queria agradecer a Deus por estar vivo. E também por ter superado quem um dia fui sem querer ser. A verdade é que eu queria agradecer sobretudo pelo terraço que tenho lá em cima, onde posso ver uma bela vista de Belo Horizonte, com um grande céu a ser contemplado. As outras pessoas do prédio quase não vão até lá, fazendo-me senti...