Silencioso Domingo
Depois de ter reclamado das palavras que desapareceram, percebo o porquê. Hoje não sou eu quem propaga o silêncio interior, mas ele que se propaga de fora para dentro. Já vivi domingos mais conturbados, cheios de idas e vindas, pessoas falando ao fundo e muita confusão ao redor. É estranho pensar assim, no limiar de outra época onde o calendário já não alcança. Tudo agora contribui para a paz. Deitado, percebi que as lembranças se desfazem como uma pedra de sal. Depois que levantei elas se foram. O dia está quente, mais que o normal. A casa dorme, mas as cores permanecem, as plantas vivem, os pássaros cantam lá fora e tudo no cenário se propaga com sentimento.
Queria agradecer a Deus por estar vivo. E também por ter superado quem um dia fui sem querer ser. A verdade é que eu queria agradecer sobretudo pelo terraço que tenho lá em cima, onde posso ver uma bela vista de Belo Horizonte, com um grande céu a ser contemplado. As outras pessoas do prédio quase não vão até lá, fazendo-me sentir proprietário daquele espaço. Uma ilusão de posse que já desfiz quando pensei em todos os jardins do mundo sendo meus. Pois é! Foi uma das coisas mais maravilhosas que já passou pela minha cabeça. Todas as flores, arbustos, canteiros, pinheiros, graminhas, heras e tudo quanto for são meus quando estão ao alcance da minha vista. Se os vejo é porque os tenho guardados no coração.
Já tem um bom tempo que escrevo sobre a vida. Uma vida simples, sem nada demais. Confesso que se tivesse algo de extraordinário, certamente não conseguiria escrevê-lo. Ou então o escreveria dizendo faltar-me palavras, que as palavras desapareceram e foram para sabe-se lá onde. Bom, parece que eu não falei a verdade. De fato, vivo uma vida extraordinária conforme este domingo. Silencioso e contemplativo. Nadando a favor da correnteza. Assim, fica fácil não ter medo das segundas. Tampouco do resto da semana.
Ainda não subi no terraço hoje. Estou guardando o momento para logo mais, quando as luzes da cidade começarem a aparecer. Eu, nascido e criado no interior, faço das luzes o reflexo de uma alma que queria viver o novo. Estou vivendo o novo todos os dias. Carregando no peito uma vontade de viver por amor. Espaço secreto onde o orgulho não entra. Vida vivida de braço dado com a verdade, alegre e precisa nos tempos de dúvidas. Quem diria! Há poucas semanas vivi a dúvida na mais pura de suas formas e só pude me recuperar entendendo a realidade como ela é.
Queria contar um segredo neste espaço. Já se foram quatro parágrafos e poucos restarão daqui para a frente. Acontece que tenho me emocionado com bastante frequência. Nada relacionado à tristeza ou à desilusão. Pelo contrário. Tenho me emocionado quando falo o nome ou penso em Maria. Não sei por quê, justo agora, depois de tanto tempo amadurecendo a fé, Nossa Senhora tem marejado meus olhos de lágrimas. Talvez seja pela sua maternidade, ou também pela simplicidade da vida que levava. Pode ser pelo fato de eu morar distante da minha mãe, que permanece no interior do estado. Quem sabe?! Existe também a história dela ter lavado as roupas do Menino Jesus com alecrim, que na época era uma planta sem cheiro, mas que pela intercessão de suas mãos se transformou em uma das plantas mais perfumadas do mundo.
Não sei o que está acontecendo comigo. Vivo dizendo sobre fases de mudanças, portas e janelas que constantemente se abrem e se fecham, livros reencontrados com outras interpretações, memórias fotográficas que ganharam cores vibrantes. Mas nunca disse nada sobre a emoção decorrente da alegria. Minha Nossa Senhora, eu não sei mais escrever sobre as coisas do céu. Peço perdão por ter esquecido. Sobretudo, agradeço pela presença, ainda que no pensamento. Falei do terraço aonde vou, por volta das seis da tarde, pois lá existe um pé de alecrim. Todas as vezes, pego uma de suas folhinhas e penso no Menino Jesus. Vou para lá não para ver as luzes da cidade anoitecendo, a Senhora sabe disso! A luz que busco é quando ouço os sinos da igreja ao longe anunciando a hora da Ave Maria. Isso me persegue, desde os tempos em Juiz de Fora.
Maria, minha mãe! Não tenho outra forma para finalizar este texto senão vos agradecendo, mais uma vez. A vida, de fato, pode ser muito bonita para quem muda as lentes. Eu disse uma vez que não me importo com o espaço pequeno em que vivo. E é verdade! Aqui tenho um chuveiro excelente para tomar banho todos os dias, tenho a sensação de pertencimento e de felicidade. Com certeza, já calcei sandálias muito mais desconfortáveis. Só pelo fato de conseguir ver o céu, tudo já valeu a pena.
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