Livros, Vitrais e Estrelas (OK)
E então, dias vazados, chegarão às poças da noite resplandecida? Encontrarão caminhos pelos torvelinhos de ressentimento guardado ou correrão livres pela correnteza do coração leve? É melhor escolher logo. E com sabedoria levar a vida rumo ao sol do horizonte mais distante que aguentar. Em torvelinhos não há horizontes. Sua casa tem janelas abertas para a verdade adentrar. Pense nisso antes de acumular livros na estante.
Tenho acordado cedo, antes do dia invadir o quarto, para pensar nos títulos secretos de uma biblioteca bem escondida. Tão escondida em mim que eu mesmo não a encontrei. Sei de sua existência porque carrego o peso das histórias comigo. Caminho por corredores escuros, cheio de portas trancadas e passagens inesperadas, acreditando buscar o que nunca foi meu, mas que, devido à falta de uma verdadeira história, passa a sensação de pertencimento. Se eu não sentisse falta de nada, jamais buscaria tais livros. Tampouco perderia meu sono pensando em títulos secretos que talvez nem existam. Ou melhor: não existem pois escolhi a inexistência das obras. O que me chama ao estado de vigília é a busca incansável e não o encontro. Caso encontre o que busco, tudo se findará num enredo previsível de final feliz. Contudo, na maioria das vezes, os finais não existem. Porque depois de um final, precipita-se o recomeço que, sem pontos, é apenas uma única coisa.
Escrevo um grande livro desde o dia em que nasci. Desde quando olhava pela janela da sala e não via uma paisagem, mas calhamaços empilhados cujos títulos desconhecia. Desconhecia por não saber ler. Depois que aprendi, tudo se tornou banal. A vontade que eu tinha era mesmo a de descobrir um segredo nas paredes da sala. Raríssimas foram as vezes em que na infância vi aquela janela aberta, mostrando um vitral de fundo esverdeado que se projetava uma flor de três pétalas cor de rosa. Se não me falha a memória, seu miolo era um círculo perfeito, amarelado, que poderia muito bem ser interpretado como um sol. Todavia, apesar de não saber ler as palavras na tenra idade, conseguia interpretar os vitrais. Quando os livros saiam de cena, eram eles que contavam as histórias.
Sinto vontade de falar um pouco mais. De não parar por aqui. Quem sabe eu consiga ir além depois dos pontos que pontilhei, imaginando as estrelas que sempre quis ver e nunca pude. Quando todos os segredos se dissipam, o que faz o mistério é a profundidade que o pensamento mergulha. E o que ele traz lá do fundo. Estou na espera. Todos os pensamentos que lancei ao fundo não voltaram ainda, e começo a perceber que de nada adianta lançar novos para que venham à superfície depressa. O que me resta mesmo é aguardar nesta embarcação, olhando para o céu enquanto os dias vazam pelas frestas seus anseios de mostrarem as estrelas da noite.
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