Oito Noites de Tormenta

Acabei de escrever à mão sobre a face da ansiedade que tem me assombrado nas últimas noites, portanto não falarei dela aqui. Quero apenas fazer menção ao sono que se esvaiu pela madrugada, fazendo-me acordar no meio do silêncio para me preocupar com coisas que não acontecerão. São duas noites navegando por estes mares de calmaria lancinante que impossibilita o meu acesso aos sonhos. E compreendo que ainda serão mais seis dessas noites à deriva na embarcação que construí a grosso modo.

Não entendo o porquê de ser assim, embora assim seja. Oito noites de tormenta, em meio ao mar sem ondas. A contradição das contradições. Ondas mesmo há em meu peito, batendo nas extremidades das praias do desejo. Olho para um lado, nada; olho para o outro, nada. Não há sol, não há chuva, não há vento. Existe apenas eu; ponto insignificante no infinito do céu e do mar. Extremamente atormentado por uma tempestade invisível, caindo torrencialmente nas entranhas da minha compreensão de não compreender.

Do primeiro para o segundo dia, vivi vinte e sete vidas. Hoje vivo vinte e nove. Não suportarei mais que cinquenta. Não sei quantas vidas os outros dias me trarão neste barquinho onde me encontro. A cada uma, perco um pouco da superfície. E quanto menos superfície, menos esperança de voltar a sonhar. Por isso recorro ao tempo, pedindo-lhe para não me machucar mais do que já estou machucado. Pare de fustigar as feridas ainda abertas. Deixe-me na fila do sonhos, ainda que os anos tenham passado rápido demais para mim. As noites estão traiçoeiras, mas a esperança me acolhe pela manhã. 

Tempo, ainda que um dia tenha sido meu inimigo, hoje o vejo como um velho contador de histórias. Peço para que retire de seu alforje a poesia onde encontro a tranquilidade de caminhar pelas veredas do sonhar e a declame em voz alta para todos assim ouvirem. Faça-a real para que a realidade não me corrompa com o seu delírio de querer viver sempre a espera de um milagre. Eu acredito em você!

Ainda flutuo sorrateiro neste oceano de incertezas, mas o meu espírito vive nas encostas de um amanhã feliz. O jeito de se sobreviver às noites em claro é imaginando-as, cada qual, como a última das tormentas. Hoje sobrevivi ao nascer do sol; amanhã, veremos o que o tempo declamará.

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