Poeira nas Mãos

Eu não sei mais o que fazer. Arranquei todas as flores do jardim. Cavei poços sem ferramentas e desnivelei o solo outrora nivelado. Também não sei o que dizer. O tempo de brincar com as palavras se foi. O que eu tenho agora em minhas mãos é poeira. E já nem sinto sede de água. Olho ao redor; tudo murado. O espaço determinando a existência. O que eu fiz com o meu quintal foi uma catástrofe. Ao invés de esperar o tempo certo de colher, fui lá capinar a grama bem à meia-noite, estando eu cego e atormentado por madrugadas sem dormir. Por isso preciso esperar o tempo da chuva, para desfazer os outeiros que fiz cavando buracos de ansiedade. Sim, é dela que falo. Num momento em que as sílabas pareciam não sair, em que as palavras viraram as costas para o seu escritor, bagunçando o texto na mente em vigília.
Sei que o maior segredo que tenho comigo é justamente o fato de não ter segredos mas gostar de mistérios. A espera angustiante destruiu os contextos secundários, os coadjuvantes e os cenários não trabalhados. Disse também que ela destruiu o meu quintal. Apesar de não ter um. Estava falando sobre aquele que iria ter na sexta-feira, à noite, quando fosse ver as flores florescendo. Hoje ainda é domingo e tenho quase uma semana pela frente de cansaço por carregar enxadas ilusórias nas costas. Acho que estou começando a me entender.
Amanhã, segunda-feira, tenho planos para viver. Na terça, não sei. Se sexta me encontrar, poderei me dar um abraço pela batalha vencida. Já dizia minha santa de devoção que eu só precisava confiar. Estou tentando e tentando, mas também sendo tentado e tentado. É nessa angústia que eu tiro as coisas do lugar com o intuito de arrumá-las. Depois, não consigo encontrar o caminho de volta. O problema mesmo são as confabulações, mas não vou entrar neste mérito. O que era para ser um fragmento de inquietação, já se arrasta pelo terceiro parágrafo.
Ah, dias ensolarados. As plantas merecem água. Eu mesmo não sei se mereço descanso. Se a noite existe para descansar, não tenho feito bom uso dela. Já escrevi outras vezes em lugares diferentes, mas dessa vez, neste lugar tão conhecido, encontro-me perdido na mesmice, como se ela tivesse assumido uma outra face. Uma face que desconheço por gostar de mistérios e não possuir segredos.

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