Diferentes Papéis

Tenho traído este espaço em outros espaços; tenho fantasiado a mente de poço dos desejos, jogando moedas ao alto para chegarem bem fundo; tenho feito tranças em redes de palavras, usando as mãos para escrever; tenho andado distraído, acreditando ter muito o que fazer, sem fazer nada; tenho ouvido outras músicas; tenho alimentado borboletas ilusórias do lado de dentro; tenho deixado para depois o que é para depois; tenho acreditado em milagres; tenho saído mais sob o sol de fevereiro; tenho enlouquecido às vezes por não enlouquecer mais; tenho tudo nas mãos conquanto estejam vazias; tenho polido a armadura da contradição e, finalmente, tenho feito das letras similares um sonho que não se sonha dormindo.
Dizem por aí que quando é para ser, acontece sem demora. No meu caso, demorou um tanto. Mas, para ser sincero, sendo eu uma pessoa demorada no próprio tempo, sempre contraditada pela ansiedade, o que foi para ser, veio no tempo certo. E eu, pouco a pouco assustado pelos fios embranquecidos surgindo em minha cabeça, no auge dos meus vinte e tantos anos, aceitei o que é. É, de fato, verdade não fantasiada e sem rodeios que encontrei uma luz depois de muito caminhar no escuro. Depois de ter feito infinitas coisas descartadas na matéria, mas perpetuadas na memória, a vida me trouxe em uma bandeja o meu reflexo na prata polida e um livro em branco para eu escrever. Seu título teria sido "A Caixa Evidente de um Escritor Navegante" se eu tivesse escolhido o caminho mais curto. Contudo, escolhi o caminho mais longo; escondi a caixa e afundei a embarcação. Foram-se as noites sem estrelas e os dias sem sol; foram-se as primaveras da vida enquanto eu me trancava num pequeno espaço em busca de respostas; foram-se as guerras externas e internas, fazendo barulho com bombas de delírio e artilharia de ilusão; tudo se transformou em uma única coisa. História. Seria ela, então, perdida se não fosse o meu desejo de lembrar. Ora amava o que escrevia, ora detestava. Ditava regras querendo a liberdade, sendo eu o carcereiro dos sonhos.
O tempo passa igual para todos. Mas nem todos percebem ele passar. Eu mesmo me perdi nas horas, nos dias, nos anos. E agora desço a montanha para me encontrar com uma multidão. Pelo menos superei o que não vivi, entendendo que outras histórias não condiziam com a minha caligrafia torta. O mais difícil de escrever é quando outro já escreveu a sua ideia. E se todas as pessoas já tiverem escrito todas as ideias do mundo, o que resta para mim são contornos que delineiam a superfície. Montanhas que fazem o horizonte acontecer. Ao menos, neste ponto, consigo ver o pôr do sol na esperança de um novo dia.
Caio mais uma vez na mesmice contemplativa da qual extraio as metáforas existenciais. Daria para contar nos dedos de uma mão as vezes em que realmente vi o pôr do sol. E o nascer, bem, ele seria apenas uma vaga lembrança mal formulada. Se hoje caminho pelas ruas ao meio-dia, foi porque aprendi a conquistar os passos no escuro de um quarto fechado. Sei que vão surgir outros livros em branco, de páginas difíceis para deslizar a caneta, mas se todas as ideias já foram escritas, a diferença está na forma de escrever, enquanto a dificuldade está na superfície do papel e não na mão de quem escreve.

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