Retalho de Sonhos

Sábado. Palavras avulsas. Música instrumental não significado nada. Tarde quente, sem nada para oferecer àquele que diz "estou aqui". Um caderno verde, uma casa limpa, um ventilador ligado, uma camisa dobrada na cama; meu Deus! Quantas coisas para se escrever. Mas e o sentimento? E os dias de angústia? E as feridas cicatrizadas? E os fantasmas depostos? E o medo? Medo! De viver, supostamente, ou de morrer sem ter vivido? Quando foi que as coisas ao redor pararam de falar em voz alta? Tudo para ouvir o que está dentro. Tudo para sentir uma respiração tranquila. Um texto não quer dizer muita coisa comparado ao tanto de coisa que não disse. É apenas mais um sábado. Queria mesmo entender aquilo não foi entendido.

Será que cresci demais e não percebi? Será que já sou o adulto que imaginava quando criança? Se sim, por que continuar negando aquilo que os dias me trouxeram? Por que não aceitar? É bem difícil dizer o indizível. Isso porque a tarefa de traduzir sentimentos em palavras é bem complexa. Para mim, uma necessidade. Para outros, um capricho. Para poucos, beleza marcante sentida em arte que se desprende. Hoje eu queria ser uma folha em branco, mas como já fui escrito por muitas e muitas noites em claro, percebo o formato disforme das letras. A marca elevada no papel usado. A rasura cinzenta de uma borracha que mal apagou. Palavra sobre palavra. É hora de escrever de novo, por cima daquilo que já foi escrito e se perdeu.

Confesso que não me conheço. Uma inverdade que finjo existir. Se na terça espero por uma boa notícia, hoje escrevo as linhas emboladas para não ser louco depois. Domingo e segunda, o meio dentro da casca que está sendo este sábado e a terça que venho sonhando. Não sei o que está acontecendo. Tampouco o porquê desse gotejar de palavras para encher uma grande bacia. Tenho algum tempo, quase nada, para compreender o que levei a vida inteira tentando e não consegui. Talvez seja hora de mudar as sandálias. Assumir um papel. Abrir as cortinas e encarar a plateia de que tanto me escondi. Por quê? Esta é a pergunta que ainda não tem resposta. Creio que seja por não ter me aceitado como o protagonista da peça. Quis viver às sombras, temendo críticas e pensamentos de quem nunca soube pensar. Com o tempo, fui perdendo espaço para aqueles que tentavam agarrar a todo custo as rosas jogadas.

Agora eu me perdi. Não consigo mais continuar este texto. Falei de rosas ignoradas por ter plantas em casa. Falei de aplausos abafados por não precisar deles, mas, será? Será mesmo que eu não queria os aplausos? Que confuso! Não sou ator. Por que eu estaria em um palco? Só se a vida fosse um espetáculo. E não é? São muitas perguntas lançadas. Vou aproveitar a claridade para continuar acreditando nas terças-feiras. Apenas mais uma tarde silenciosa. É preciso se acostumar. 

Venho costurando frases há um bom tempo. Retalho após retalho, sem uma ideia do que quero realmente. É por isso que escrevo. Viver é acreditar e escrever o que acredita. Se acredito em retalhos, eis aí o que tenho para oferecer. Mas se acredito em sonhos, então, bem, nesse caso, todo dia é dia para viver um recomeço. Foi-se o tempo dos fantasmas. Agora, falaremos dos jardins que tenho para contemplar e das histórias que tenho para viver. O passado é uma miragem distorcida. Acabou quando tinha de acabar. Vela apagada, marcada pelo fim. Um dia voltarei para ler este texto, perdido entre tantos, e não me reconhecerei nestas palavras. Isso acontece porque existe esperança. E a esperança, ainda que padecida, encontra meios para renascer nos corações que abriram suas portas aos sonhos. De novo e de novo.

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