Esperança Abafada
Realmente, parece que as coisas deram certo. Lembro-me do desespero que senti quando me foi pedido apenas para acreditar. Eu, que sempre me julguei compreensivo, não compreendi a esperança. Pensei que não a tivesse, mas tendo-a, acabei dilacerando a sua essência na descida da rua onde me encontrava. Meu Deus! Tudo o que me foi dito era: "Acredite!". E eu, corrompido pela cólera de não ter feito o melhor que podia, não quis acreditar. Os dias se passaram comigo reclamando o pedido não atendido. E quando a esperança renascia das cinzas a cada manhã, eu a abafava com uma manta pesada de desilusão. Isso porque estava iludido e descrente da promessa feita. Descrente também do que me disseram sobre: "o que é para ser seu, vem na sua mão". Mais um clichê no meio do balaio de frases avulsas, era o que eu pensava. Daí, veio um novo ano. Novas predisposições para acordar a cada manhã, querendo da vida uma surpresa a todo instante. Quando penso que não, surpreendo-me com o recado: "deu certo", colocado debaixo de minha porta. Aliás, debaixo de meu travesseiro. Porque se tratava de um sonho, e sonhos vêm à noite de mansinho, adentram as estranhas do pensamento para consertarem o que foi quebrado. Quando dei por mim, estava lá, numa fila de espera, esperando uma boa notícia.
Poderia eu agora falar sobre intercessão de santos? Talvez, sim, quem sabe?! Foi de fato o que eu pedi. A bem da verdade, fui atendido. Devo confessar de senti vergonha por ter abafado a esperança. A oportunidade que tive para confiar não foi bem aproveitada, porém, mesmo assim, eles entenderam que eu era apenas uma criança chorando pelo sorvete que derramou na calçada. Quem me dera se todos os problemas fossem sorvetes nas calçadas. Mas, está aí, para todo mundo ver. Algo que deu certo. Substancial. Um novo caminho a se seguir, um novo horizonte a se contemplar. Creio que posso parar de fazer rodeios com as palavras para ser bem direto sobre aquilo que estou falando.
O que sinto em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, jamais senti em qualquer outra cidade que tenha morado. A sensação de pertencimento é de suma importância para que eu plante sonhos neste solo tão poético para mim. Ao que tudo indica, dentro de alguns dias, me tornarei aluno da Universidade Federal de Minas Gerais no curso de Letras. Dez anos depois de eu ter me formado no Ensino Médio e caminhado por estradas que eu jamais pensei que fosse caminhar. Tudo bem eu ser formado em Relações Internacionais. Tudo bem eu ter almejado ser um comissário de voo, um psicólogo, um frade franciscano, um agente bancário. O que mais condisse com o meu propósito foi o Pena Pensante e suas resenhas literárias, que eu fazia por livre e espontânea vontade. Tudo agora corresponde a páginas e mais páginas de uma grande história escrita. No fim das contas, serei professor daquilo que sempre amei. Livros e língua portuguesa. Esteve tão obvio durante todo esse tempo, como pude optar pela cegueira? São muitas questões que surgem. Contudo, ontem mesmo pensei em algo que me confortou: de aceitar tudo aquilo que a vida tem para mim. Estou aberto às oportunidades porque sou pó, e ao pó voltarei um dia.
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