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Mostrando postagens de janeiro, 2022

Histórias Dentro de Mim

Mudei da água para o vinho.  De escritor passei para leitor — vinho seco.  Páginas secas, histórias desconhecidas, linhas entretidas no vazio, código não decifrado. Quero ser tudo, mesmo que o tudo seja nada. E na imensidão do nada, caminhar para o infinito.  Cansei de preencher papéis de cartas para ninguém, cansei de pegar a caneta e não ter caligrafia própria, de esboçar ideias brilhantes em meio à neblina da madrugada, de esticar-me para pegar uma fruta estragada, de odiar-me diante das adversidades rasuradas. Hoje eu acordei para ler. E tenho lido cada vez mais histórias dentro de mim.

Fragmento do Céu Estrelado

Fases de transições são recorrentes numa vida conturbada de pensamentos indo e vindo, sem parar. Elas surgem disfarçadas nos momentos em que vista fica cansada e os óculos já não garantem mais uma paisagem perfeita. Está na hora de mudar as lentes dos meus. Quantas coisas pude ver com elas, quadradas e grandes, apoiadas em meu nariz. Mas agora está na hora de guardá-las. Está na hora de trocar os óculos e ver o mundo de uma forma mais apurada, racional e certeira.  Gostaria de deixar claro que vários projetos têm circundado a minha cabeça e estão prestes a pousar como gaviões famintos. Enquanto isso, outros se desfazem em meio à fina areia do tempo que os cobre. Mais dia ou menos dia, serão esquecidos. Enterrados nos cemitério das ilusões.   Posso ser quem sou, e deixar de ser também. Já não me conheço mais. Perdi-me em meio às palavras. As frases deixaram os sentidos das vias e se marginalizaram para as bandas do não querer. Como disse: já não me conheço mais. Os desejos...

Lapidando meu Saber

Hoje eu ganhei uma impressora para me auxiliar nos estudos. Acontece que eu ainda não me familiarizei com uma rotina ideal. Tenho buscado, mas em vão. Até agora nada. E o tempo está correndo contra mim. — Vamos lá, Filipe. Você consegue, rapaz. Não precisa ficar imprimindo todas as páginas para acumular papel. Acumule dentro de si mesmo o conteúdo. Está tudo na tela do computador. Lembre-se: cansado todos estão. E eu garanto para você que muito mais cansado está aquele que fica de pé o dia todo. Aproveite o seu momento. Não pare de caminhar. — Faça seus exercícios com vontade de aprender. E aprenda com eles. A preguiça não tem vez na sua rotina. Daqui a pouco eu volto para esclarecer algumas coisas. Até lá, estude mais. O estudo é o seu bem mais precioso. 13:28 p.m. do dia seguinte: Tomei banho. Lavei a alma. Tenho tentado estudar e encontrar um impulso para meu aprendizado. Estou com foco, mas por ora tenho andado em terreno muito pedregoso e meus pés estão doendo. Vou insistir. Algun...

A Saudade e o Coração

Estou achando todos os textos preguiçosos, sem nenhuma faísca de animosidade. Em outras palavras: sem graça e insosso. Quis transformar tudo em poesia, mas acabei padecendo diante das portas fechadas da literatura. Creio que não consigo formular mais um parágrafo sequer. A continuidade basilar da narrativa trepida numa chama incessante de inquietude. Em meio ao caos, o raciocínio vacila e some. A chama se apaga e tudo se perde. Palavras por palavras, nas mentes vazias são apenas cinzas de fogueiras esquecidas. Hoje eu acordei com um aperto no peito. Lembrei-me de uma época já perdida, e pelas janelas escancaradas do meu coração entrou a saudade. Caminhou pela casa como uma velha senhora de vestido negro, olhando ao redor com os lábios contraídos de desgosto. Na cabeça da saudade várias indagações surgiam: "Onde estão as cores dessa moradia? Para onde foi o espírito de lar materno? O que aconteceu enquanto estive ausente?". Ela quis chorar, mas segurou as lágrimas. A saudade e...

Razão Contingente

Não deixarei a chama da vela se apagar. É preciso mantê-la acesa sempre. E para isso, darei o meu melhor. Mas vamos falar de verdade o que se assola no campo minado das ideias. Nada. Brilhantemente nada.  E, como tanto, o "nada" se faz em maresia de um oceano que já secou. Apesar de chover por dias consecutivos. Enfim, vamos recomeçar tudo, mais uma vez: Estou esperando — desejo vibrante pela volta dos papéis rasgados. Dessa vez, sem linhas ou margens. Apenas pedaços avulsos de papéis jogados pelo chão do poeta. Cada um com sua respectiva palavra — ou metade dela; talvez; quem sabe, apenas com a brancura de uma lembrança não escrita. Seria isso meu espelho de pensamentos? Amando e querendo estar junto ao meu verdadeiro eu, recolhendo palavras de papéis rasgados e abandonados. Simplesmente por querer escrever. Acontece que a verdade, propriamente dita, é que eu não estou escrevendo nada. Só estou querendo ver a carruagem do tempo passar pelo vidro da janela fechada. Com isso, ...

Água Doce

Talvez você não precise entender tudo, água de riacho pequeno.  O oceano é grande demais para você, translúcida dos vales gelados. Ah, e antes que eu me esqueça: o filete ao qual se encontra é cristalino. Graças a Deus. Crie os peixinhos coloridos, bata nas pedras, reflita a luz das estrelas, chore com os pingos da chuva... Mas não queira adentrar a correnteza feroz. Ela não foi feita para você. Sua crueldade é tamanha e tirará de você o precioso brilho de nascente.  Deixe, vez ou outra, as folhas desprendidas das árvores serem suas descobridoras.  Não vá se enfiar por debaixo de grandes embarcações; você não aguentará o peso. Viva feliz com a fina areia que te sustenta. Você é preciosa, fraterna água doce.  Mantenha-se firme na missão. Um dia poderá ver a lua te guardando com um olhar materno em meio a noites sem fim.    Terá sabedoria para entender que as mais singelas tarefas, por vezes, são as maiores existentes. E a lua vai dar-lhe um dom prateado como...

Chuvas e o Relógio na Parede

Hoje eu meditei sobre algo importante, mas já esqueci o aprendizado. A chuva o levou. Não me lembro de um janeiro tão chuvoso quanto este. Há muito não vejo um céu azul. Está bem! Sobre o que havia pensado, o aprendizado é o seguinte: A todo instante tenho me cobrado muito para estar sempre fazendo algo de útil — seja escrevendo, lendo, estudando ou qualquer outra coisa que agregue uma carga de utilidade no compasso do relógio pregado na parede. Tique-taque interminável e moroso. Acontece que eu pensei: por que ficar assim, buscando sempre uma definição de encargos para preencher as horas vagas? Não há motivo algum. Daí me veio à mente um época que já passou, mas que eu podia entender mais como o tempo funcionava. Existe momento para tudo. Até para aceitar o descanso. Ainda que ele dure. E o que os outros vão pensar pouco importa. Filipe, agora estou falando com você: Você sabe que faz o seu melhor. Não precisa retirar sua tranquilidade de cena — se é que ela existe — toda vez que algo...

Retalhos da Vivência

Parece haver uma neblina impedindo minha visão. Não é à toa que os dias estão tão escuros e chuvosos; que os passos estão tão pesados; que as nuvens desceram para se esconderem nas vielas iluminadas por luzes amarelas. Pedras molhadas compõem as calçadas por onde ando, sem sequer poder enxergar um palmo à minha frente. Cansei de todo esse cinza, dessa umidade teimosa, das paredes geladas e das portas e janelas fechadas para o mundo. Cansei de pisar em poças quando faltam pedras e de me sujar. Sinto falta do sol, das tardes quentes alaranjadas, das noites estreladas e dos sonhos que um dia sonhei. E os exemplos vão remendando o dia que vai chegando ao fim. Retalhos da vivência. Queria ter mais coisas para falar; quem sabe depois que eu der oportunidade a uma nova manhã? Até lá, estarei onde os escritores naufragados se apresentam: no silêncio de seus corações.

Folhas Perdidas

Sobre os contos que desapareceram: tudo se perdeu. Propositalmente. Incinerados por minhas próprias mãos. Há textos que devem ficar no passado. E este, ser esquecido. Como quando meu computador caiu no chão e se quebrou, fazendo-me perder o início da secreta e nunca mencionada história da árvore prateada. Também perdi fotos de anos. Mil? Duas mil? Quem sabe três? Enfim... O real está presente no agora, qualquer coisa além é mera ilusão. Números, letras, pontos sem fim. Aprender a perder é virtude, sim. Pois quando joguei as páginas pela janela, tirei um peso de minhas costas sabendo que aquilo não mais me pertencia. Voaram no precipício. Claro que metaforicamente. Não havia precipício, tampouco janela. Apenas um botão que, uma vez apertado, tudo excluiu de minha vida. Não há provas. Nem lembranças. Frases que se desfizeram. Desencacharam-se em pencas de letras desgovernadas rumo ao chão. Posso dizer que eram de vidro. Daí, o fim. Este é apenas um fragmento de um texto sem graça, numa t...

Verde no Campo de Batalha

Estou escrevendo em cima de uma toalha branca bordada com flores. Não vejo a mesa. Não vejo sua cor. Sei apenas que ela apoia minhas palavras. A toalha fantasia a realidade. E minhas palavras fantasiam um céu nublado em pleno verão. Os pássaros se foram, bem como as plantas, as cores, as borboletas, os sorrisos e as cantigas. O verde que antes vibrava deixou de existir. Outro dia; outra tempestade. Agora pude me acalmar e colocar a cabeça no lugar. Antes deparei-me com o monstro da ansiedade, trazendo consigo aquilo tudo: Palpitação, falta de ar, pensamentos borbulhantes, trens desgovernados, choques de raciocínio. Parei por um instante. Ouvi a voz da chuva: "tenha calma, tudo vai dar certo". Mas estou cansado. Esgotado. Limitado a sentir as paredes me cercando e a viver a base de doses de esperança. Li uma ficção, ela me levou para outro planeta. Pensamentos ruins vieram e eu os substituí por pomares carregados de frutas vermelhas. Talvez esteja caminhando no limiar da loucu...

Órbita das Palavras

Vamos combinar que agora eu escrevo realmente para ninguém. Perdi o estilo, as margens, o espaçamento... Perdi a ferramenta!  A força de se pegar numa caneta. Ninguém se importa.  Ainda que eu resolvesse utilizar um lápis... Ele se quebrou bem no meio. Estou com estranhos sob o mesmo teto. Flores desconhecidas. Cantos descompassados. A verdade é que eu não sei o que estou fazendo. Recuso-me assumir uma crise existencial. Vejo algo como um planeta saindo de órbita e adentrando o vazio do espaço desconhecido. Sozinho e sem ter sequer um sentido para guiá-lo pela imensidão enegrecida. Hoje as palavras perderam o valor. O sol não apareceu... E eu, mais uma vez, caminho em um campo saturado. Antes eu pudesse ser a estrela cadente vista dos altos montes. Teria espectadores.  Meu caminho levou-me à solidão. O planeta não mais reluz e eu pouco me importo com a estética das frases não lidas. Para que servem? Não são lidas. São jogadas, brincando de astros pelos sistemas. Não quere...

Caligrafia Torta

Cheguei a um ponto de nada mais saber. Costurando palavras com uma linha tão fina que, por um instante, parei de escrever.  Daí comecei a falar: No diário de sobrevivente eu estarei agora, no quarto, tentando entender algumas coisas. Sozinho, no escuro... Deserto! Mente vazia; luz minguante, bruxuleante... Jardim esquecido, noite sombria e caliginosa, sem nada para pensar. Mas mesmo assim, ainda, desejo pensar... Agora, os pensamentos vindos à mente são cruéis. Devastadores. Arrancam-me os sentidos — o que eu tenho de mais precioso — deixando-me cru; oco; parado. Algo incompreendido. Já que a outros olhos sou nada mais do que uma incógnita. Esfinge sob a sombra. Ser vagante. Transeunte desesperado para chegar a lugar algum. Digo isso porque na solidão do quarto vazio, depois de uma tempestade, ainda escuto as gotas da chuva que passou... Tudo acontece dentro do imenso vazio que é sentir, mas não ser sentido. Talvez eu devesse amar menos. Talvez eu não devesse dar tanta importância,...