A Saudade e o Coração

Estou achando todos os textos preguiçosos, sem nenhuma faísca de animosidade. Em outras palavras: sem graça e insosso. Quis transformar tudo em poesia, mas acabei padecendo diante das portas fechadas da literatura. Creio que não consigo formular mais um parágrafo sequer. A continuidade basilar da narrativa trepida numa chama incessante de inquietude. Em meio ao caos, o raciocínio vacila e some. A chama se apaga e tudo se perde. Palavras por palavras, nas mentes vazias são apenas cinzas de fogueiras esquecidas.

Hoje eu acordei com um aperto no peito. Lembrei-me de uma época já perdida, e pelas janelas escancaradas do meu coração entrou a saudade. Caminhou pela casa como uma velha senhora de vestido negro, olhando ao redor com os lábios contraídos de desgosto. Na cabeça da saudade várias indagações surgiam: "Onde estão as cores dessa moradia? Para onde foi o espírito de lar materno? O que aconteceu enquanto estive ausente?". Ela quis chorar, mas segurou as lágrimas. A saudade era orgulhosa. Diante dos ecos de seus pensamentos na casa vazia, ela refletiu as escolhas erradas e os destinos apagados. Não havia nada que pudesse fazer ali. Apenas retirou uma vela gasta de seu bolso de renda junto a uma caixa de fósforos. Fez a luz nascer naquele ambiente melancólico e sua sombra se projetou nas paredes marcadas pelas molduras dos quadros retirados. Acocorou-se ao centro, e lá deixou a pequena vela arder. Fechou todas as janelas e antes que pudesse fechar também a porta da sala com a pequena chama trepidante ao chão, ela chorou. Suas lágrimas formaram um rio pelas entranhas do coração, fazendo nascer coloridas flores no quintal. A saudade percebeu que sua presença não surtia efeito nos domínios sentimentais. Secou as lágrimas com a manga de seu vestido e partiu para as entrelinhas do inconsciente. 

A vela continuou lá, queimando solitária, até que um vento vindo das profundezas do querer fez com que ela tombasse. Ao invés de se apagar com a queda, o fogo se espalhou e incendiou o coração. Tornou-se vivo, mais uma vez. E estava pronto para viver uma nova aventura. Do longe, os sentimentos puderam vê-lo queimar mais e mais. Quando, finalmente, o fogo se extinguiu, estava novo. Vibrante e aquecido. 

Aos poucos os sentimentos iam chegando e trazendo consigo uma nova decoração para enfeitar a casa outrora tão esquecida. A porta estava aberta e o jardim florido. Por algum tempo, ninguém ouviu falar da saudade. Apenas que fora ela quem havia incendiado o coração e regado seu jardim com as lágrimas de lembranças felizes de uma época distante. Daí os sentimentos perceberam que a velha senhora vestida de negro quis passar uma mensagem com as labaredas da vela há muito guardada em seu bolso: não importa quantas vezes precisamos enfeitar o coração e fazê-lo de morada aos sentimentos, ele sempre se reinventará para os anseios da alma. Ainda que passe por estações vazio e sem vida, a saudade sempre baterá a sua porta de tempos em tempos.

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