Caligrafia Torta
Cheguei a um ponto de nada mais saber.
Costurando palavras com uma linha tão fina que, por um instante, parei de escrever.
Daí comecei a falar:
No diário de sobrevivente eu estarei agora, no quarto, tentando entender algumas coisas.
Sozinho, no escuro... Deserto!
Mente vazia; luz minguante, bruxuleante... Jardim esquecido, noite sombria e caliginosa, sem nada para pensar.
Mas mesmo assim, ainda, desejo pensar...
Agora, os pensamentos vindos à mente são cruéis. Devastadores. Arrancam-me os sentidos — o que eu tenho de mais precioso — deixando-me cru; oco; parado. Algo incompreendido. Já que a outros olhos sou nada mais do que uma incógnita. Esfinge sob a sombra. Ser vagante. Transeunte desesperado para chegar a lugar algum.
Digo isso porque na solidão do quarto vazio, depois de uma tempestade, ainda escuto as gotas da chuva que passou... Tudo acontece dentro do imenso vazio que é sentir, mas não ser sentido.
Talvez eu devesse amar menos. Talvez eu não devesse dar tanta importância, deixando todo peso sentimental voar para longe. Ou, então, esquecer. Vento não leva peso para longe.
E quanto caminhar e seguir andando? Acontece que eu não tenho um caminho. Acontece que tudo não faz sentido. Acontece que eu sou sozinho. Acontece que não há mais pranto, e que as lagrimas sequer escorrem por meu rosto fatigado. Mas, mesmo assim, ainda sinto a tristeza arrombando as portas do meu coração.
O interessante é pensar que tamanha tempestade que outrora desempenhara sua predominância aconteceu ontem, ou anteontem, mês passado, ano passado, eu não sei... Mas aconteceu. Não apenas uma única vez, mas várias. Ela, aos poucos, foi destruindo certas coisas. De primeiro, um canteiro, um galho... Depois ela foi para os arbustos; foi ficando mais forte... Foi derrubando até pequenas árvores. O jardim assumiu um tom sem graça, destruído, com sinais de abandono e catástrofe.
Não dizem que água faz bem às plantas? Eu já não sei. A tempestade destruiu o jardim. E agora ele está feio, ninguém mais o quer. Ninguém mais caminha sobre suas trilhas ou tenta escutar o canto das aves.
Apenas o vento, invisível e incompreendido.
E eu retorno ao início da reflexão:
Se me tornei um ser incompreendido, pelo fato de ter deixado alguns sentimentos no caminho ou por terem tirado o que eu tinha de mais precioso, talvez eu devesse me unir ao vento e voar. Acontece que o meu coração ainda bate, pesadamente...
E esse mesmo coração ainda está acorrentado. Embora eu não diga que seja a corrente que o prende. Pois corrente é uma coisa muito fria. Meu coração está preso por algo mais humano... Do qual eu não quero me desfazer.
Estou preso por opção e ninguém pode me ajudar. Sou vítima de uma paixão incompreendida. E quero vivê-la assim. Por ora! Por enquanto! Enquanto durar, enquanto eu aguentar.
Sou as palavras incompreendidas do caderno escrito há muito tempo por uma caligrafia extremamente torta. De uma forma rápida, sem pensar, sem calcular, sem margem no caderno. Sou apenas uma caligrafia torta.
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