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Mostrando postagens de novembro, 2022

O Segredo da Verdade (OK)

No dia em que dei a mão à verdade ela me mostrou um segredo. Abriu uma caixa. No canto mais fundo do armário, escondida entre outras caixas, Lá estava ela: opaca, simples, confusa na escuridão, estática, Esperando o tempo de ser redescoberta.  Sua tampa quadrada, de papel amassado, grosso e áspero, Depois de tantos anos, pôde firmemente se desvincular da base. O segredo da verdade lá estava, no fundo da caixa perdida, Tão próximo durante esse tempo, e mesmo assim distante. Não era ouro; não era prata; não brilhava à luz do ambiente, Nem refletia meu semblante surpreso. A verdade o apanhou e o depositou em minha mão, À forma de um sentimento velado, À guisa de um desejo perdido, Ao passo em que não compreendia, Ao molde em que me dava seu tesouro mais preciso.  Era um bloco de folhas com uma caneta. A verdade então pôde dizer-me: "Agora que me conhece, viu o meu rosto, deu-me sua mão, Caminhou comigo por aí, desprendendo sorrisos De quem vê o mundo com leveza,  Você pode c...

Domingo Atípico

Acordei cedo, como de costume. O dia se estende. Clareia o quarto. Avança pelas paredes e abraça os detalhes como os pensamentos abraçam as circunstâncias. Estou me conhecendo. Aprendendo a lidar comigo. Entendendo que apenas eu sou responsável pelas interpretações. A leitura da existência, a arte de lidar com os recomeços, as palavras apinhadas nos canteiros de flor. Como se eu abrisse uma janela e contemplasse um gramado muito verde, limpo, isento de impurezas, rodeado de frases soltas esperando sua vez de se propagarem no quintal. Lá elas pulam, rodam, brincam, se cansam e se deitam olhando para o céu. Eu, escorado no parapeito da janela, observo a vida acontecendo. Embora parado, minha mente acelera. Tenta não perder os detalhes. Tenta encontrar tesouros no silêncio. Quando vejo, o dia se foi. Eu queria não dar tanta importância. De tanto administrar incertezas, obtive o contrário. O verso ignorado de um papel jogado ao canto. A certeza de que o dia sempre retorna, trazendo consigo...

Malas Perdidas

O personagem esquecido retornou de viagem, com as mãos vazias, sem nada de novo para compor seus artefatos na estante da sala. Trazia consigo apenas a roupa do corpo e algumas palavras avulsas para compor sua retórica: — Foi uma linda viagem! Perdi as malas no porto. Se foram roubadas eu não sei. Talvez tenha sido eu que as esqueci por um delírio de minha parte. Fiquei tão abismado com  imensidão do mar que deixei a mente vagar. Já o tinha visto outras vezes, em outras andanças pelo mundo, com outras cores adornando-o; outras línguas, outras embarcações, outros portos onde desembarquei. Nunca me atentei às profundezas. Tampouco a linha do horizonte que se desenhava à vista de minha janela. Percebi que o cenário era grande demais para um personagem tão pequeno. Viajando de barco por águas desconhecidas. Um barco barato que poderia afundar a qualquer momento. Fazendo desaparecer muitas histórias. Dessas pessoas que andam por aí: pessoas orgulhosas, cheias de si, sem saber para onde v...

A Janela dos Livros Empoeirados

Por anos, a janela foi minha estante. Sua paisagem se dava nas histórias escondidas. Lembro-me de quando não sabia ler e mesmo assim abria os livros para contemplar o formato das letras. Algumas enciclopédias eram ilustradas, fazendo-me ficar horas olhando para as cores e contornos que formavam imagens curiosas. Quanto mais detalhada, mais atenção eu dava. Gostava muito de ver grandes castelos, pontes sobre rios, cidades iluminadas, ruínas misteriosas, animais exóticos, pessoas caminhando, paisagens bonitas, e tudo quanto era engenhosidade ilustrativa. Podia formar narrativas com elas, mesmo sem entender de escrita. Revisitando este espaço, consigo compreender como se deu algumas coisas. Como eu vim parar aqui. Aquela janela tinha muito mais do que livros. Tinha a infância de um menino, alérgico a poeira, que precisava vencer os espirros para folhear a aspereza com suas pequenas mãos. Quanto tempo se passou? Eu nem me conheço mais. Tudo existe apenas em mim. Um coração ansioso pelo toq...

A Festa da Mentira

A persistência mostrou sua face. Algumas coisas foram entendidas a partir disso. Não se trata de um jogo de dados, de quem vai ganhar ou perder, ou dos personagens que vou escolher. Tudo é constância, energia do sol, vida batendo à porta fazendo-me um convite especial. Eu bem que queria administrar as incertezas, mas, sendo incapaz, tento brincar com as frustrações transformando-as em pedrinhas na margem de um rio. A que mais saltar sobre a água é a que mais fundo chegará. Por isso, navego pelas profundezas buscando as belezas da vida mais secreta que jamais subiu à superfície. Quis enfeitar-me para um evento sem convidados. Alertar a todos do salão que eu estava pronto para uma jornada. Servir bebidas e petiscos em bandejas de pratas que reluziam as chamas dos candelabros dourados. Enlouqueci antes da primeira nota do piano. Delirei sobre pretéritos arrancados do campo ressequido. Olhei para a pompa e para a solidão. Vi minhas feridas nos grandes espelhos. Aos poucos, os enfeites fora...

Boato da Felicidade

Se algum dia fui triste, foi há muito tempo. Hoje trago cores nos olhos. Reflexo do inconsciente, olhando para a cachoeira Do rio que sempre correu. Já parou para pensar na vibração da queda? No aroma do mato que cresce pequeno? No peso das pedras que se escondem dentro d´água? Na altura das árvores e no ninho das aves? Há tanto para se pensar. Lápis para se desenhar. São as cores do olhar, do pensar, do estar; Existir e exprimir; inspirar e transpirar Oitavas harmônicas; canções da correnteza; Repentes do pensar que se esvaem pelo torvelinho Que escorre; e corre, rápido demais.  O boato da felicidade, da vida sentida No extremo sentir, vem e se enraíza nos quintais. Como eu busquei uma cachoeira para mergulhar. Sem frio, sem medo, sem receio, sem passos em falso. Apenas pular.  Quero existir desenhando jardins e pomares carregados, Coloridos e de extremo sabor. Tudo mudou quando me abracei na tempestade.  E vi que era completo. Vi que o amor era interno. Quente como uma ...

Cantar para Sempre

E essa nova vida? Com músicas, plantas, dias claros e conversas jogadas fora. Eu realmente não tenho do que me queixar. Cores, paletas, pincéis: o quadro está aí. Caminhei por estradas perdidas que os mapas não mostram. Ninguém precisa passar pelo o que passei. Para chegar aqui?! Não mesmo. Mas eu, bem, eu fui tropeçando pelas pedras pequenas e grandes, pedras de todos os tamanhos, para alcançar um ponto de visão. Sei que agora tenho aprendido a esvaziar o coração. Deixá-lo livre. Flutuante. Foram tantas provas. Para quê? Para provar que sou algo que não sou. Para provar que me destaco em meio aos abutres, ficando com a parte maior da carniça. Que ironia. Eu, que pregava a simplicidade, tentando vender uma imagem idealizada de um ser impreciso. Um desequilíbrio de anseios, tombando para fora dos muros que construí. Demorei muito até pegar no martelo e quebrar tudo. Quero apenas ver o céu. Quero poder me deitar e sorrir para as nuvens. Olá, para você, que me viu enlouquecido na chuva. V...

O Caderno e a Saudade

Lembro-me de um lugar diferente; terra molhada, noite prolongada, silêncio marcante, vida em constante movimento, luzes baixas, hora para começar e terminar, antigas canções, antigos papéis, flores no grande jardim inexplorado, uma casa recém-reformada cheirando a boas-vindas, um caminho serpeando outros caminhos, muitas opções e pouco contato, muita emoção e pouca vivência, muitas histórias e apenas um amor. Foi lá que um simples caderno verde me foi dado. Àquela época eu pensava que tudo era surpresa e não contava os dias no calendário. O caderno seria preenchido com planos de uma vida descartada. Uma noite iluminada pela lua era valiosa. Os caminhos me guiaram para águas nunca antes navegadas. Sem embarcação, eu mergulhei no mar. Acordei numa praia deserta, sozinho. Tudo tinha sumido. Menos o caderno que, tendo perdido sua capa original, fez-se verde. Verde-esperança. Não o preenchi com a vida passada. Apenas com o presente. Aos poucos, fui desfazendo os laços da ilusão. Fui cortand...

Recomeçar

Amanhã é um novo dia; Nova mesmo é a vida que vai começar. Flor renascida, depois de tantos anos, Tantas letras, tantas vezes regando Sem esperança de ver acontecer. E aconteceu enquanto todos dormiam. A uma hora, ela rompeu silenciosa. Às duas, saiu devagar. Às três, viu que era tempo de dizer para si: Sou o que sou, nada além de poeira que aprendeu A colorir de verde seus sonhos, de vermelho suas paixões, De azul o céu que fez de espelho E de prata a chuva que cai, e cai, e cai Sem tempo e lugar para botar os pés no chão, Sentir a terra molhada, o cheiro da tarde alegre Que desprende os momentos em cores de raios do sol. A nuvem. O ar. O dia que vai além, sem fim, vagando pelas portas abertas, A junção sagrada de uma chuva repentina ao capim que secava No pasto onde eu poderia correr, Vivendo o único momento feito: então, agora. Adiante, o depois inalcançável. Ficando sempre para lá Do alcance das mãos de quem planta E sabe esperar o tempo de colher. Sou a nova estrada, a nova sement...

Bolsos Furados

Confesso que desconheço esse lugar, Essas formas espelhadas, repetidas, apinhadas Nos esquemas forçados das esquinas que vira o coração. A rapidez me assusta; não tem forma nem contorno, Não brinca de trocar as canetas, nem de desenhar traços Que vão além das linhas. Perdi algo precioso, e só sei disso pelo furo do bolso. Enquanto caminhava, caiu e rolou para longe de meus passos. O que é, eu não sei. Acho que era um barbante Que tentava usar para prender os sentimentos. Devia tê-lo usado para fechar o furo, certamente. No entanto, a gente só percebe os espaços vazios, Os buracos da alma, os passos incertos pela estrada pedregosa, Quando alguma coisa se perde. No caso, apenas um carretel que usaria para ligar pontos, Como uma cama de gato em mãos de crianças Que tentam descobrir a próxima disposição dos laços. Que confusão, tudo isso, toda essa artimanha, Para dizer que ando com os bolsos vazios. Furados. E para dizer também que as estradas pelas quais caminho São tortas.  São de t...