Domingo Atípico
Acordei cedo, como de costume. O dia se estende. Clareia o quarto. Avança pelas paredes e abraça os detalhes como os pensamentos abraçam as circunstâncias. Estou me conhecendo. Aprendendo a lidar comigo. Entendendo que apenas eu sou responsável pelas interpretações. A leitura da existência, a arte de lidar com os recomeços, as palavras apinhadas nos canteiros de flor. Como se eu abrisse uma janela e contemplasse um gramado muito verde, limpo, isento de impurezas, rodeado de frases soltas esperando sua vez de se propagarem no quintal. Lá elas pulam, rodam, brincam, se cansam e se deitam olhando para o céu. Eu, escorado no parapeito da janela, observo a vida acontecendo. Embora parado, minha mente acelera. Tenta não perder os detalhes. Tenta encontrar tesouros no silêncio. Quando vejo, o dia se foi.
Eu queria não dar tanta importância. De tanto administrar incertezas, obtive o contrário. O verso ignorado de um papel jogado ao canto. A certeza de que o dia sempre retorna, trazendo consigo novas oportunidades de rastelar as folhas secas caídas na noite anterior.
Hoje é um domingo atípico. Não sei por quê! Tomei banho; tomei café; vesti uma camisa vinho, listrada; varri a casa; ainda assim, não me conheço. Não me vejo no espelho do banheiro. Não consigo entender essa claridade que adentra o ambiente. Energia pesada é encostar o dedo na tomada. Um choque às vezes é bom para recorrer aos fundamentos trancados sabe-se lá onde. Agora um avião passa fazendo barulho. Eu aqui, escrevendo qualquer coisa; o piloto lá, cortando o céu e achando sua vida tediosa. Doido para aterrissar e se encontrar deitado no sofá de casa. Momentos raros! Posso contar nos dedos as vezes que andei de avião; não posso fazer o mesmo para as vezes que me recolhi pensativo no sofá. Eu nem sequer tenho um sofá. Muito menos uma sala para colocá-lo.
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