Bolsos Furados
Confesso que desconheço esse lugar,
Essas formas espelhadas, repetidas, apinhadas
Nos esquemas forçados das esquinas que vira o coração.
A rapidez me assusta; não tem forma nem contorno,
Não brinca de trocar as canetas, nem de desenhar traços
Que vão além das linhas.
Perdi algo precioso, e só sei disso pelo furo do bolso.
Enquanto caminhava, caiu e rolou para longe de meus passos.
O que é, eu não sei. Acho que era um barbante
Que tentava usar para prender os sentimentos.
Devia tê-lo usado para fechar o furo, certamente.
No entanto, a gente só percebe os espaços vazios,
Os buracos da alma, os passos incertos pela estrada pedregosa,
Quando alguma coisa se perde.
No caso, apenas um carretel que usaria para ligar pontos,
Como uma cama de gato em mãos de crianças
Que tentam descobrir a próxima disposição dos laços.
Que confusão, tudo isso, toda essa artimanha,
Para dizer que ando com os bolsos vazios.
Furados.
E para dizer também que as estradas pelas quais caminho
São tortas.
São de terra batida com pedrinhas
Que se enfiam entre os dedos e incomodam muito.
Mas, ainda assim, sigo andando.
Não preciso de linha que enlace sentimentos.
Ou estão presos aos galhos da árvore, ou voaram com a ventania,
Ou foi o outono que chegou. Mas, não!
Estamos longe do outono.
Posso até subir um morro ou dois para avistar o horizonte;
Posso descansar sobre a grama
E me esquecer dos bolsos furados, das roupas rasgadas;
Posso acreditar que sou pássaro, que sou menino, que sou vento e folha;
Posso brincar de subir nas árvores, de pular nos rios,
De ver as estrelas surgindo ao anoitecer.
Mas não posso fingir que amarro o que já se arrebentou.
Não posso arrastar a corrente que me prende, que pesa e me assombra.
Vejo luzes de uma cidade ao longe,
Vejo montes e pontos de mata nativa.
Mas não vejo sonhos aprisionados.
Tampouco quem foi feliz juntando gaiolas em sua varanda.
Viver é caminhar com os bolsos furados.
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