A Janela dos Livros Empoeirados

Por anos, a janela foi minha estante.
Sua paisagem se dava nas histórias escondidas.
Lembro-me de quando não sabia ler e mesmo assim abria os livros para contemplar o formato das letras.
Algumas enciclopédias eram ilustradas, fazendo-me ficar horas olhando para as cores e contornos que formavam imagens curiosas.
Quanto mais detalhada, mais atenção eu dava.
Gostava muito de ver grandes castelos, pontes sobre rios, cidades iluminadas, ruínas misteriosas, animais exóticos, pessoas caminhando, paisagens bonitas, e tudo quanto era engenhosidade ilustrativa.
Podia formar narrativas com elas, mesmo sem entender de escrita.
Revisitando este espaço, consigo compreender como se deu algumas coisas. Como eu vim parar aqui.
Aquela janela tinha muito mais do que livros. Tinha a infância de um menino, alérgico a poeira, que precisava vencer os espirros para folhear a aspereza com suas pequenas mãos.
Quanto tempo se passou? Eu nem me conheço mais.
Tudo existe apenas em mim. Um coração ansioso pelo toque da caneta no papel, que perdeu a sensibilidade de criança. Foi uma vida que passou.
É um fragmento de passado. Uma vela esquecida no altar da esperança. Onde o vento passou e quase apagou a chama. Felizmente, ela queimou e se desfez. No lugar empoeirado dá para saber que teve luz ali. A marca continua depois de todo esse tempo. O quadro da esperança no centro da sala foi roubado; a parede entrega sua ausência. Que espaço triste se tornou. Quem o abandonou desse jeito? É verdade que eu tentei fugir de mim, acorrentando-me do lado de fora. Pensei que tudo se transformaria. Jamais pensei que o que buscava estava tão próximo, no lugar que abandonei. Sem olhar para trás. Agora, tenho dores no pescoço. Quero ver e não consigo.
Sei que aos poucos vou me redescobrindo. Foi só um instante de inconsciência. O abismo da alma. Não é dia de mergulhar fundo. Quero respirar no alto de uma montanha. Para chegar lá, preciso passar nesta ponte. Vamos?! Filipe! Existem outras janelas, outros livros, outros quadros de esperança. Você sabe disso. Não se perca no caminho. Tudo é labirinto quando não se sabe o que quer. Mas sabe! Sabe muito bem. Posso te contar um segredo? Você vai conseguir.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se perdeu!

Prática Diária da Escrita: Dificuldade e Superação

Alguma Coisa Incomum