Malas Perdidas
O personagem esquecido retornou de viagem, com as mãos vazias, sem nada de novo para compor seus artefatos na estante da sala. Trazia consigo apenas a roupa do corpo e algumas palavras avulsas para compor sua retórica:
— Foi uma linda viagem! Perdi as malas no porto. Se foram roubadas eu não sei. Talvez tenha sido eu que as esqueci por um delírio de minha parte. Fiquei tão abismado com imensidão do mar que deixei a mente vagar. Já o tinha visto outras vezes, em outras andanças pelo mundo, com outras cores adornando-o; outras línguas, outras embarcações, outros portos onde desembarquei. Nunca me atentei às profundezas. Tampouco a linha do horizonte que se desenhava à vista de minha janela. Percebi que o cenário era grande demais para um personagem tão pequeno. Viajando de barco por águas desconhecidas. Um barco barato que poderia afundar a qualquer momento. Fazendo desaparecer muitas histórias. Dessas pessoas que andam por aí: pessoas orgulhosas, cheias de si, sem saber para onde vão, perdidos no compasso desregulado da vida desregulada que carregam nas costas. Pesarosos por não poderem carregar mais. Queriam então carregar o mundo às entranhas de suas vísceras? Queriam assinar seus nomes em mais de uma lápide? Morrer muitas vezes? Ocupar todos os lugares? Nunca seriam tão grandes como o mar. Porque o mar se contentou com o espaço que lhe foi dado. Jamais quis ocupar o céu, evaporando-se em nuvens de tempestade. Voltaria à estaca zero. Voltaria a ser gota, gotícula, orvalho de grama rasteira. A esses viajantes, desejo-lhes a leveza de uma alma livre. O que houve com minhas malas, isso pouco importa. Terei muitas, em muitas outras viagens. A lembrança é a roupa que não se troca. Vai mudando, de bordado em bordado, de caminho em caminho, de história em história. Mas nunca deixando de ser lembrança. Vestida!
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