A Festa da Mentira

A persistência mostrou sua face. Algumas coisas foram entendidas a partir disso. Não se trata de um jogo de dados, de quem vai ganhar ou perder, ou dos personagens que vou escolher. Tudo é constância, energia do sol, vida batendo à porta fazendo-me um convite especial.

Eu bem que queria administrar as incertezas, mas, sendo incapaz, tento brincar com as frustrações transformando-as em pedrinhas na margem de um rio. A que mais saltar sobre a água é a que mais fundo chegará. Por isso, navego pelas profundezas buscando as belezas da vida mais secreta que jamais subiu à superfície.

Quis enfeitar-me para um evento sem convidados. Alertar a todos do salão que eu estava pronto para uma jornada. Servir bebidas e petiscos em bandejas de pratas que reluziam as chamas dos candelabros dourados. Enlouqueci antes da primeira nota do piano. Delirei sobre pretéritos arrancados do campo ressequido. Olhei para a pompa e para a solidão. Vi minhas feridas nos grandes espelhos. Aos poucos, os enfeites foram caindo, rolando para debaixo das mesas, e a verdade foi se revelando. Eu estava sozinho àquela noite. A festa era um teatro para me enganar. Tentei chorar forçando uma sensibilidade inexistente. Ninguém estava ali. Desci as escadarias para mim, deslizando os pés pelos calcanhares, sabendo a farsa montada nos desconjuros da alma.

Não suportei a verdade. Joguei as taças sobre ela. A festa acabava ali, comigo de joelhos, aos cacos dos cristais que tanto almejei, chorando o rio do qual saí quando explorei suas profundezas. Ninguém me disse que eu não estava pronto. Por isso mergulhei. Vi formas desconhecidas no meu íntimo que julguei serem peixes de águas frias. Mas não! Eu havia me enganado. Era tarde demais para voltar atrás.

Precisei quebrar o palácio para suportar a verdade. Pedra sobre pedra. No fim, quando tudo era pó, a noite estava estrelada. O céu, de desenhos magistrais, acolheu-me com verdadeiro afeto. Nenhuma construção se igualaria a ele naquela ocasião. Ainda estando deitado sobre os destroços da mentira, pude ver beleza na noite. Era tudo tão simples. Por todo esse tempo, fui eu quem complicou tudo. Eu que atei os nós da rede para pescar. Sem técnica, sem vontade, sem entusiasmo. Apenas pelo status de ser pescador.

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