O Caderno e a Saudade

Lembro-me de um lugar diferente; terra molhada, noite prolongada, silêncio marcante, vida em constante movimento, luzes baixas, hora para começar e terminar, antigas canções, antigos papéis, flores no grande jardim inexplorado, uma casa recém-reformada cheirando a boas-vindas, um caminho serpeando outros caminhos, muitas opções e pouco contato, muita emoção e pouca vivência, muitas histórias e apenas um amor.

Foi lá que um simples caderno verde me foi dado. Àquela época eu pensava que tudo era surpresa e não contava os dias no calendário. O caderno seria preenchido com planos de uma vida descartada. Uma noite iluminada pela lua era valiosa. Os caminhos me guiaram para águas nunca antes navegadas. Sem embarcação, eu mergulhei no mar. Acordei numa praia deserta, sozinho. Tudo tinha sumido. Menos o caderno que, tendo perdido sua capa original, fez-se verde. Verde-esperança.

Não o preenchi com a vida passada. Apenas com o presente. Aos poucos, fui desfazendo os laços da ilusão. Fui cortando a grama do meu quintal. Fui pintando as paredes mofadas. Fui desaguando as lágrimas nos canteiros de flores. Fui reaprendendo a existir. Fui recriando a imaginação abandonada. Fui sendo a última estrela a aparecer no céu. Fui sorrindo por aí, comigo, nas calçadas da vida onde tropeçava e me envergonhava de ser eu mesmo. Aprendi a ter um nome. Aprendi a ter uma vida. Aprendi que tudo é verde na primavera, mas é o outono que tem o dourado do sol.

Jamais chorei pelo tempo que se foi. Apesar de sentir um aperto no peito. Quis, por muitas estações, ter feito diferente. Entretanto, se fosse diferente, o que seria de mim? Este trem é curioso. Ora ele para, ora vai direto. Nunca sabemos qual é a estação da vez. Apenas que as paisagens são lindas. Muito lindas. Coisas que não veria se não fosse viajante. Agora, não preciso mergulhar nos mares gelados. Nunca fui homem do mar. Apenas um desastrado contando uma história para as sombras. Estando muito longe das praias, fico com os papéis rasgados, juntando os retalhos de uma existência mal costurada. 

Ainda tenho o caderno verde. Costumo escrever nele pelas tardes dessa vida. Já foi metade. A outra está por vir. Não sei quando nem onde. Se assim o terminar, outros cadernos virão. Outras cores também. São as estações trazendo lembranças. O trem que não para. Os viajantes buscando contornos para suas viagens. Azuis, amarelos, violetas; mares nos olhos de despedidas. Quem disse que não sou homem do mar? Se o carrego no olhar de quem vê a vida como pescador de histórias.

Tenho uma saudade insistente. Que me deu a mão para passear por aí. Este texto é sobre ela, que está aqui. Não vai embora, porque se costurou na toalha da mesa, se fez no bule de café, se estendeu sobre cama e se escreveu nas páginas e páginas do caderno da minha vida. 

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