A Escassez dos Dezembros
Nunca entendi o porquê de eu não escrever tanto em dezembro. Mês de muitas coisas. As palavras, que me suportam durante todo o ano, não têm vez em dezembro. O desfecho do ano passa sem poesia. A poesia, tentando passar, força a barra, despenca no desfiladeiro, arranca as mudas do quintal para replantá-las no ano que virá, e chora porque foi esquecida. Esquecida ela não foi. Apenas deixada de lado. Os últimos dias do ano são assim: fazem-nos esquecer algumas preciosidades para darmos lugar a outras. O tempo passa. Os livros ganham uma nova camada de poeira. Muita coisa some de dentro do armário. Escritos de uma vida quase esquecida. Se não fosse por minha memória, as luzes já teriam se apagado. Mas um dia minha memória também partirá, e tudo isso vai se perder em profundezas inexploradas. Por isso, percebi que toda e qualquer preciosidade parte de dentro para fora. É o que lançamos que torna o alvo precioso. Daí vem meus textos, tantos os perdidos quanto os encontrados, que são de extre...