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Mostrando postagens de dezembro, 2022

A Escassez dos Dezembros

Nunca entendi o porquê de eu não escrever tanto em dezembro. Mês de muitas coisas. As palavras, que me suportam durante todo o ano, não têm vez em dezembro. O desfecho do ano passa sem poesia. A poesia, tentando passar, força a barra, despenca no desfiladeiro, arranca as mudas do quintal para replantá-las no ano que virá, e chora porque foi esquecida. Esquecida ela não foi. Apenas deixada de lado. Os últimos dias do ano são assim: fazem-nos esquecer algumas preciosidades para darmos lugar a outras. O tempo passa. Os livros ganham uma nova camada de poeira. Muita coisa some de dentro do armário. Escritos de uma vida quase esquecida. Se não fosse por minha memória, as luzes já teriam se apagado. Mas um dia minha memória também partirá, e tudo isso vai se perder em profundezas inexploradas. Por isso, percebi que toda e qualquer preciosidade parte de dentro para fora. É o que lançamos que torna o alvo precioso. Daí vem meus textos, tantos os perdidos quanto os encontrados, que são de extre...

Compasso do Tempo

 23:58 do dia vinte e dois. Meu aniversário está terminando, por mais um ano. Um novo Filipe, talvez. Jamais pensei que receberia uma carta escrita por mim em 2014, e quando menos esperava lá estava ela na caixa de entrada. A princípio eu não sabia o que era. Poderia facilmente ser excluída por julgar ser algo irrelevante. Por fim, abri o e-mail. Abracei o passado e revi, face a face, uma pessoa que há muito já deixou de existir. 23:51 Foi uma surpresa. Sim. Uma surpresa das grandes. Como eu pude escrever aquilo? E mais: como eu pude me esquecer assim, completamente? A vida é cheia de facetas abstratas como quadros de uma galeria moderna. Cada um interpreta como pode. Esta carta foi interpretada por mim como um soco no estômago. 23:52 Está chegando o fim. Meu aniversário, agora, mais uma vez, só ano que vem. Conversei com meus pais. Com Otávio. Rimos e contamos casos. No fim da noite descobri que todos os textos que escrevi a mão no ano de 2017 e 2018, bem como cartinhas de recorda...

Mar Congelado

Estou perdido em meio a tantas informações. Não sei qual delas me fará bem. Quero aprender o essencial, mas ele está flutuando junto a outros seres flutuantes que o comprimem em um curto espaço de mar. Se o essencial fosse um pouco mais pesado, talvez afundaria. Mas é leve. Menos denso que o líquido sob seu corpo. Acho que muitas pessoas quiseram contemplar o vazio; acabaram enchendo o espaço e sufocando os essenciais da vida. O mar, que antes era para se perder no horizonte, passou a ser um delírio de banhistas desesperados por informações e conhecimentos. Ninguém mais sabe filtrar nada. Ninguém mais fala em voltar à praia. Ninguém aprendeu a nadar e mesmo assim flutua por ser inflado demais. Impressionante a força de vontade para captar os momentos. Será mesmo que captam? Querem transformar o dinâmico em estático; cortar a correnteza do rio e o crescimento das árvores. Amam os perfumes das flores desde que estejam reprimidos aos frascos. Ah, mais uma vez! Mais uma vez estamos no mar ...

Diálogo com o Personagem Esquecido

— Quanto tempo não o vejo! — disse ao personagem esquecido. — Olha, eu realmente não estou sendo visto. Raríssimas vezes, afinal.  Suas palavras carregavam um certo teor de preguiça adentrando os mares da indiferença. Para o personagem esquecido, viver aquém da fantasia lhe dava olhos cansados e obsoletos.  — Creio ser a primeira vez que converso com você — prossegui curioso. Mas o personagem não estava nem aí para o que eu estava crendo. Se fosse a primeira, a segunda ou a terceira; tanto faz. Nada importava para ele. E eu o via envolto em sua aura apática e insossa. — Aparentemente, personagem... Bem, aparentemente você não tem tido muitos problemas, não é? Aliás, nem está tão esquecido assim. Veja só! Você, bem aqui, no mesmo espaço em que eu estou.  Não sei por que estávamos na frente do elevador do prédio onde moro, e ele estava demorando chegar no andar. O personagem quase esquecido não morava por aqui. Mas, por algum motivo, estávamos no segundo piso. No corredor m...

Tempestade de Areia

Pela manhã, tive uma mente limpa. Ao meio dia, ela se decompôs. Feito algo que se decompõe na natureza.  Virou espaço; camuflado e escondido. Às três, uma tempestade de areia encobriu meu horizonte. Tudo se misturou. Tudo era pó esvoaçante. Às seis, percebi que a tormenta tinha passado. Sabe-se lá para onde... Deixando-me sem rastro. Sem norte. Sem margem. Sem qualquer estrela no céu Que pudesse me mostrar o caminho. Meia hora depois, estava eu tentando tirar a poeira de mim Batendo as mãos pelos ombros e braços, pelo peito aberto E pernas cansadas.  Levantei uma nuvem incomodada Por ser conduzida em batidas.  Limpei-me da tempestade. Descobri-me humano, perdido no deserto Por pura e inconstante distração. Havia pontes em algum lugar que não foram atravessadas; Estradas não percorridas; Montes não escalados E mentes não diluídas Por estarem num deserto. Pensamentos ressequidos, calcificados,  Feito pedras que assombravam na escuridão. Não se mexiam, mas sua simples p...

Gotas e Grãos

E a vida que ganha forma de onda do mar, Apagando as pegadas da areia E as histórias de gente que jamais voltou. O que volta são elas; as ondas, Amaciando os caminhos, Passando a limpo uma nova existência Com conchas e corais, Peixes que vão ao raso buscar água morna Para viverem! É o mar, é o céu; os barcos que somem além do horizonte E trazem das profundezas seu tesouro. O mistério se concretiza nesse compasso: Indo e vindo; ficando e retornando. O movimento das ondas busca os grãos mais profundos E os dá a oportunidade de contemplarem o sol Na praia dos sonhos.  Depois, é hora de voltar! E descem às profundezas Levando as novidades da superfície. O mesmo acontece com o céu, Quando arrasta um pouco de mar para si. Sem ter como fazer ondas nas tempestades, Pegando um pouco de estrelas do espaço Para que retornem em seguida Contando as histórias da noite sobre o mar, Devolve o que pegou em forma de chuva. E ela cai alegre, encrespando o reflexo da lua que vibra Com a comunhão de qu...

Rostos Conhecidos

Tenho visto pessoas na rua que me despertam para uma verdade imperfeita. Rostos conhecidos que eu desconheço. Sensação de já ter visto sem nunca o ter. Por que tais rostos são tão familiares? Numa capital, transeuntes apressados e descontrolados são efeito de uma vida corrida que passa despercebida nos reflexos das vidraças. A rua, sempre cheia, de carros e ônibus, não conversa com a calçada. Quem anda a pé, segue a pé, mantendo o cuidado de atravessar apenas quando o sinal estiver verde. Das calçadas aos rosto, existe uma ligação: de passos ruidosos estimando uma chegada precisa aonde quer que seja. Uma chegada feliz depois de uma dia cansativo. Na rua, à margem da vida na calçada, os carros se trancam e cada qual carrega consigo a sua realidade. Param apenas no sinal vermelho; e é lá que as cordas da vivência se unem numa única realidade. É lá que a arte acontece. E quem caminha tem vez de atravessar para o outro lado. Existem pessoas que passam a vida tentando se fechar na própria r...

Memória e Saudade

Ontem eu quis escrever tantas coisas, tantas ideias, tantas reflexões brilhantes navegando nos mares da mente. Hoje, manhã cinzenta e silenciosa de domingo, não sou ninguém. Perdi todos os fios que puxei; todos os balões se estouraram; todas as chuvas caíram e, de repente, sumiram. Dormi e não sonhei; sono sem palavras que se pregou na parede no quarto como um quadro vazio, apesar da bela moldura. Por que isso acontece comigo? Vivo perdendo tesouros entre os dedos, de mãos estendidas, querendo saber o que fazer quando encaro o vazio.  O silêncio que busquei tem me incomodado. Fantasmas que voltam sem dó de pisarem novamente no campo onde perderam suas vidas. Tenho saudade de coisas secretas; mistério que se deita mas não dorme; pedra que não despenca morro abaixo; livro conhecido, mas nunca lido. Hoje, vesti-me de azul. Porque quis trazer um pouco do céu escondido para dentro de casa. Na quietude dessa manhã, trabalho com as incertezas de ruídos ao meio-dia. Pela tarde, sei que vou...

Verbos do Aprendizado

Estou em fase de aprendizado. Fora dos livros; da poeira na estante; das teias que as aranhas fizeram; do estrago da chuva forte; das pegadas que algumas aves deixaram na janela; da vassoura escondida atrás da porta; fora até mesmo de mim. Consegui arrebentar as amarras e fugi para um lugar conhecido, aconchegante em sua pequenez, silencioso nas dobradiças das entradas, estimulante na capacidade de se moldar ao que eu preciso. Uma poltrona, um abajur de luz amarela, alguma coisa para esticar as pernas e uma venda para tampar os olhos. Este é o meu mundo. E, nesta escuridão, construo o meu universo. Algum tempo se passou. Algumas vozes foram desaparecendo. E o verbo desaparecer se enraizou, fazendo-se presente na arte que desempenha: desapareceram reflexos, memórias, ilusões; também, pessoas, objetos, cadernos. Foi a primeira vez que vi um verbo sair do papel para atuar no palpável. No físico intransigente, na forma estática do que era para ser esquecido e não foi, nos cacos de um espel...