Gotas e Grãos
E a vida que ganha forma de onda do mar,
Apagando as pegadas da areia
E as histórias de gente que jamais voltou.
O que volta são elas; as ondas,
Amaciando os caminhos,
Passando a limpo uma nova existência
Com conchas e corais,
Peixes que vão ao raso buscar água morna
Para viverem!
É o mar, é o céu; os barcos que somem além do horizonte
E trazem das profundezas seu tesouro.
O mistério se concretiza nesse compasso:
Indo e vindo; ficando e retornando.
O movimento das ondas busca os grãos mais profundos
E os dá a oportunidade de contemplarem o sol
Na praia dos sonhos.
Depois, é hora de voltar! E descem às profundezas
Levando as novidades da superfície.
O mesmo acontece com o céu,
Quando arrasta um pouco de mar para si.
Sem ter como fazer ondas nas tempestades,
Pegando um pouco de estrelas do espaço
Para que retornem em seguida
Contando as histórias da noite sobre o mar,
Devolve o que pegou em forma de chuva.
E ela cai alegre, encrespando o reflexo da lua que vibra
Com a comunhão de quem antes já foi um só.
As gotas então retornam ao mar e dançam com os grãos,
Que voltam a contar o espetáculo às praias.
Eu, sentado nas pedras, observando as ondas,
Não entendo o idioma delas.
Mas compreendo que conversam entre si.
Existe mistério nos detalhes. E um motivo para existirem.
Assim como as ondas do mar, existem ondas no coração
Que me fazem renascer todos os dias quando a maré avança
Em meu peito.
Trazem um pouco de fora para dentro;
E levam de dentro para fora.
Assim, vivo sendo poesia a ser escrita.
Pegando um pouco do dia que nasce ao longe
E devolvendo em sonhos semeados pela noite.
Como o céu, não posso trazer as estrelas distantes para perto,
Mas posso fazer chover sentimento em cada linha;
Em cada palavra; em cada vírgula.
Posso esconder um tesouro no que não foi escrito,
Esperando as ondas, em seus recomeços,
Levarem às praias o que para mim é precioso,
Como são as gotas e os grãos,
Como é o amor no coração.
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