Rostos Conhecidos

Tenho visto pessoas na rua que me despertam para uma verdade imperfeita. Rostos conhecidos que eu desconheço. Sensação de já ter visto sem nunca o ter. Por que tais rostos são tão familiares? Numa capital, transeuntes apressados e descontrolados são efeito de uma vida corrida que passa despercebida nos reflexos das vidraças. A rua, sempre cheia, de carros e ônibus, não conversa com a calçada. Quem anda a pé, segue a pé, mantendo o cuidado de atravessar apenas quando o sinal estiver verde.
Das calçadas aos rosto, existe uma ligação: de passos ruidosos estimando uma chegada precisa aonde quer que seja. Uma chegada feliz depois de uma dia cansativo. Na rua, à margem da vida na calçada, os carros se trancam e cada qual carrega consigo a sua realidade. Param apenas no sinal vermelho; e é lá que as cordas da vivência se unem numa única realidade. É lá que a arte acontece. E quem caminha tem vez de atravessar para o outro lado.
Existem pessoas que passam a vida tentando se fechar na própria realidade. Quando finalmente conseguem, esquecem dos caminhos que percorreram e recomeçam do zero uma nova jornada. É preciso lembrar, caríssimos, que isto vai além de um assunto sobre automóveis e transeuntes. Nadamos e nadamos muito num lago infinito, buscando um ponto para se apoiar e descansar. Uma ilha, com coqueiro que dê coco o ano todo. Não posso falar sobre oceanos aqui. Oceanos são grandes demais para uma única vida. Por isso, lagos e lagoas representam aquilo que temos de maior: o tempo. Não tentamos permanecer na margem, mas queremos ir sempre mais fundo. Alguns de barco, outros a nado. Qual o objetivo de se chegar no centro de um lago sem ilhas? Por que essa aversão à margem? Foi de lá que nós saímos afinal. E mesmo que cheguemos do outro lado, chegaremos à mesma margem. Tudo é limite do ponto de partida.
Ainda assim, existem outros que querem construir embarcações imensas para navegarem pela lagoa de águas rasas. Eles têm a impressão de que estão em uma ilha particular. E que agora podem descansar tranquilamente. Mas não sabem que estão à deriva numa poça de lama, feito uma formiga numa folha qualquer. Que mania é essa de entrar em um lago que todos entram simplesmente para se firmar diante de uma multidão desesperada?
Depois da rua, do lago, da formiga solitária, vem a vida sem sentido. O tempo passa e as perguntas surgem. Valeu mesmo a pena? Por que não fui para o outro lado? O lado das montanhas. Por que escolhi aquela rua, naquele sinal verde, para atravessar? Onde estava pensando em chegar? Ou por que construí uma realidade paralela para viver? Não me atentando à arte do lado de fora; à natureza acima; à simplicidade do lado de dentro. Precisei mesmo complicar tanto assim? Sendo que tudo era tão simples. Podia apenas ter molhado os pés e voltado à sombra de uma bela árvore; podia seguir o caminho das amoreiras e laranjeiras. Por que escolhi o asfalto, a multidão e os passos apressados?
Ainda me pergunto o motivo de encontrar rostos tão familiares na rua. Eis a resposta: eles são tudo aquilo que escolhi para mim. Cruzaram meu caminho, minha vida e minha história. Nunca saberei seus nomes. Mas por que isso importaria? Afinal, um nome é apenas um detalhe que um segundo não consegue capitar. Eles foram embora com suas histórias escondidas. Eu também fui com as minhas. Já disse em outros momentos que no fim tudo viraria poesia, até mesmo na ausência de porquês em um texto que tem mais perguntas que respostas. Além disso, para que respondê-las? Se os tesouros são secretos, carrego os meus camuflados em pontos e vírgulas. Há sempre um motivo para caminhar adiante. Ou para voltar, chegar em casa, abrir uma janela e respirar. Respirar, pois a vida passa com um tempo igual para todos.

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