A Escassez dos Dezembros

Nunca entendi o porquê de eu não escrever tanto em dezembro. Mês de muitas coisas. As palavras, que me suportam durante todo o ano, não têm vez em dezembro. O desfecho do ano passa sem poesia. A poesia, tentando passar, força a barra, despenca no desfiladeiro, arranca as mudas do quintal para replantá-las no ano que virá, e chora porque foi esquecida. Esquecida ela não foi. Apenas deixada de lado. Os últimos dias do ano são assim: fazem-nos esquecer algumas preciosidades para darmos lugar a outras.

O tempo passa. Os livros ganham uma nova camada de poeira. Muita coisa some de dentro do armário. Escritos de uma vida quase esquecida. Se não fosse por minha memória, as luzes já teriam se apagado. Mas um dia minha memória também partirá, e tudo isso vai se perder em profundezas inexploradas. Por isso, percebi que toda e qualquer preciosidade parte de dentro para fora. É o que lançamos que torna o alvo precioso. Daí vem meus textos, tantos os perdidos quanto os encontrados, que são de extrema preciosidade para mim. E só para mim. Pois lancei neles a lança de luz que incendeia o imaginário fazendo-o real. Eu sou real. E faço real qualquer coisa em que acredite.

Acredito piamente na minha poesia. Nas minhas histórias. Nas páginas que preenchi. No tempo que passou sem eu dar conta, porque estava em contato com o mais profundo de minha alma. Pouco importa se algumas não sobreviveram nas batalhas. Eu estou aqui. E posso certificar quem quer que seja de que tudo é colorido quando os olhos se marejam de estrelas. As cores são plasmas de sóis perdidos em outras galáxias que encontraram caminhos de luz para chegarem em nossas vidas. Os olhos, as portas de entrada. Quem não os tiver, que usem as orelhas. E se mesmo assim alguém não as ter, que usem a pele e sintam o vento. O vento também vem de longe. Ele traz poesia para quem tem sinos na varanda. 

Eu, perdido nessa vida, tentando entender a escassez dos dezembros, desenho vendavais e constelações para validar um pensamento pueril. O que eu quero dizer, ao fim da noite, é que eu ainda sou poeta das vidas não vividas. Sou a própria noite esperando o dia raiar. Os raios rompendo o horizonte, rasgando o véu que se estende nas colinas; a cascata das noivas que se perderam; a corrente que trazia o mundo no rumo do sol; a carruagem vazia descendo as montanhas da vida. Eu apenas queria um ponto para ligar ao outro. Montar um quebra-cabeça. Nunca pensei que faltasse tantas peças.

Por sorte tenho um livreto debaixo da minha cama. Ele me ensina a acender um candeeiro. De luz amarelada me visto. Com traços bruxuleantes me enlaço. Vivo de aparências morteiras, embora traga o sol no meu coração. Ainda desamarro as sandálias de uma viagem cansativa. Preciso descansar. E me reencontrar na próxima vez que o relógio se despencar da parede. Até então, sonharei com estradas de pedras e árvores frondosas cujas folhas caíram e formaram um tapete para que eu pudesse caminhar. Sigo caminhando.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se perdeu!

Prática Diária da Escrita: Dificuldade e Superação

Alguma Coisa Incomum