Diálogo com o Personagem Esquecido
— Quanto tempo não o vejo! — disse ao personagem esquecido.
— Olha, eu realmente não estou sendo visto. Raríssimas vezes, afinal.
Suas palavras carregavam um certo teor de preguiça adentrando os mares da indiferença. Para o personagem esquecido, viver aquém da fantasia lhe dava olhos cansados e obsoletos.
— Creio ser a primeira vez que converso com você — prossegui curioso.
Mas o personagem não estava nem aí para o que eu estava crendo. Se fosse a primeira, a segunda ou a terceira; tanto faz. Nada importava para ele. E eu o via envolto em sua aura apática e insossa.
— Aparentemente, personagem... Bem, aparentemente você não tem tido muitos problemas, não é? Aliás, nem está tão esquecido assim. Veja só! Você, bem aqui, no mesmo espaço em que eu estou.
Não sei por que estávamos na frente do elevador do prédio onde moro, e ele estava demorando chegar no andar. O personagem quase esquecido não morava por aqui. Mas, por algum motivo, estávamos no segundo piso. No corredor mais escuro dos cinco que correspondem seus respectivos andares.
— Estou impaciente — disse-me então o personagem. — Nada de novo acontece. Se a vida se mostra tão opaca para mim, eu farei o mesmo a ela. Sou a cinza da fogueira que queimou, meu caro. Preciso descer depressa, e este elevador não vem.
Ele podia usar as escadas, logo pensei. Mas não compensava dizer nada naquela circunstância. Então, deixei-o prosseguir:
— Vejo que você tem muitos compromissos. Mas eu... Olhe para mim! Um espectro carregando entulhos para baixo e para cima. Vou sair pelo portão e tentar encontrar uma razão para viver. Ao menos você tem as palavras. Tem os livros. E eu? O que eu tenho? Experiências sem sentido, desejos frustrados, tempo que passou rápido sem que ao menos me deixasse entender suas projeções na parede da sala onde morava. Você se lembra? Do meu antigo apartamento. Você já viu as sombras descerem pela parede ao entardecer. Sabe do que eu estou falando. Tais memórias me perseguem até os dias de hoje. Eu não consigo me desfazer delas. São cães raivosos esperando eu passar para o outro lado para me abocanharem. Por dentro, tenho uma tristeza escondida. Nem ao menos pude encontrá-la e exterminá-la. Está escondida de mim. Dentro de mim.
Eu, de certo modo, quis ajudá-lo com o que tinha de mais precioso: palavras.
— Que busca incansável é esta que você se encontra? Para que se cobrar tanto carregando um peso que não é seu? Devo confessar-lhe que pensei em um diálogo amigável entre nós. Jamais pensei que você estivesse passando por tudo isso. Quero muito poder ajudá-lo. Vamos ao terraço, lá em cima tem uma vista muito bonita. Você pode contemplar o céu, a paisagem; sentir o vento passando por você. Pode colocar a cabeça no lugar e não pensar mais em bobagens. O que acha? Depois você voa; voa longe por estar leve. Leve por deixar de lado tudo o que não te pertence.
Nesse instante, a porta do elevador se abriu. O personagem esquecido entrou e lançou-me um olhar de tristeza. Nenhuma outra palavra saiu de sua boca. Apenas o som da porta se fechando ecoou pelo ambiente. No marcador de andar, indicava que o elevador estava descendo.
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